Quando mudei-me para Turmalina, havia, ali, um dos últimos lugares em que pude ser eu mesmo. Meu jeito por vezes sério, por vezes pueril encontrava ali energia para todos os ânimos: Turmalina era um dos últimos lugares em que era possível ir à padaria para comprar pão e leite tipo A; era um dos únicos lugares em que, até duas da manhã, nada mudava muito em relação às seis da tarde.
Claro, digo duas da manhã porque não estava lá para ver se o movimento continuava, pois, dizem, "nada acontece de bom depois das duas da manhã" -- e não me faltaram situações para aferir a veracidade desse ditado, embora nenhuma haja sido em Turmalina.
Os moradores eram gente pacata, mas havia algo na Av. Giovanna Cabral que tornava Turmalina um ícone boêmio, além de seu nome digno de música: as casas de show. Não era possível falar muito em bares, pois "a Cabral", tal como referida pelos moradores e frequentadores, era um baluarte da arquitetura neoclássica e a prefeitura proibira modificações -- e ainda havia um rígido conjunto de regras sanitárias e estéticas ditado pela subprefeitura.
Lembro-me bem da Rosa Púrpura da Alves, situado na intersecção entre a comercialmente movimentada Av. Maria Martha Alves e 'a Cabral'. O lugar tinha nome de bar de português, mas, se bem me lembro, o Marquito -- proprietário do estabelecimento -- era de Valência. As mesas eram cobertas com toalhas de pano esburacadas que só se justificavam perante as regras da prefeitura a título de estilo, somado ao fato de que a cultura dos fiscais não os permitia aferir se batia com a arquitetura oitentista do restaurante.
Sentava-me ali, duas fileiras para trás do palco. Geralmente, acontecia, em dias chuvosos, de alguns bêbados se alojarem da tempestade ali dentro e cinco minutos depois começarem a sapatear no palco de forma grotesca e sincrética, criando, assim, um evento humorístico que provavelmente só existia em Turmalina. O chopp do Rosa não era algo necessariamente bom, nem lá muito barato, porém sempre havia alguma batida de vodka apenas para passar o tempo, quando o estômago fizesse cara feia para o copo semi-cheio ou semi-vazio padrão alemão estacionado sobre a mesa.
Da janela larga e um pouco suja de gordura dava para ver as trincas nas calçadas e, eventualmente, alguém tropeçando nela, mas sempre levantado aos risos. Poucas vezes vi em Turmalina alguém que não soubesse sorrir de modo alegre e debochado, a menos que fosse algum mafioso (mas estes, geralmente, usavam gravatas ridiculamente coloridas, tornando-os fáceis de se identificar). Os carros eram do ano, e as pessoas se vestiam conforme a época, embora não como ditava a moda. E raramente via-se alguém acompanhado sem tagarelar.
Pagava a conta, saía e olhava os casais andando de mãos dadas, ou se pegando nos cantos. Era engraçado como alguns quase se engoliam durante os beijos, mas isso não parecia incomodar. Os moradores até diziam que era melhor alguns tropicalies (uma gíria local para malandro de praia que só vê praia no fim de semana mas que mesmo assim está sempre vestido para a finalidade de pisar na areia molhada) se engolindo do que aparecer algum triângulo amoroso francês com a baguete debaixo do braço -- "esses casais são a marca do nosso 'foda-se'".
Os tropicalies, entretanto, mesmo andando de bermuda ou saia, geralmente usavam chapéu tipo Panamá e óculos de sol RayBan, pois faziam questão de se integrarem à elegante paisagem.
A luz de turmalina exige um parágrafo a parte. Ali não ventava muito, e no calor era, às vezes, infernal. Eu morava em um flat (em um estilo, hoje, seria visto por uma construtora como um duplex de luxo) de janela grande para "a Martha Alves", aquela avenida que falei mais para cima, e via o sol entrar pela janela do mesmo jeito que via banhar a praia de uma cidade costeira. Faltava, porém, a brisa, e, eventualmente, a praia.
Acontece, entretanto, que as coisas mudavam. Eu mesmo mudei. Mudei para uma casa térrea, em uma transversal da Av. Martha, a Rua Tapioca Chinesa. Essa rua tinha um intenso tráfego de ônibus a diesel, articulados e convencionais. Era infernal dormir depois das 4 h AM, porém havia mais espaço e estava, na época, tentando morar com uma mulher um tanto quanto neurótica chamada Laura. Gostava dela, mas fui praticamente empurrado do flat para lá, pois a mocinha sabia bem que sozinho não iria sair do flat.
Laura conseguiu, com isso, me privar do pequeno escritório do flat, me jogando em um quarto para a rua com uma cama de casal e tudo do escritório aglomerado em volta. Não era possível usar o outro quarto (mais tranquilo, e com vista para o quintal) porque a sogra se instalara ali. Durante esse tempo, então, produzi pouco e também pouco observei. Quando menos me dei conta, tudo tomava uma forma metálica de alumínio contínuo e reluzente em direção ao céu.
Vi, então, que Turmalina virava uma Berrini. Deparei-me com o proprietário do Rosa fechando a casa e me informando que estava bem pago para viver sem restaurante para resto da vida, embora afirmasse que iria sentir saudades dos clientes. Os vidros altos e os entalhes na pedra das fundações e estruturas fôra substituído por prédios de brutal concreto ou de alumínio reluzente, de formas quadradas.
Aquilo era sufocante. Até o prédio em que tive meu flat estava, segundo falavam, em vias de ser vendido à Mendes Sá, a construtora mais famosa da cidade, na época.
Minha cabeça não processava mais dados ou informações. Tudo era espanto, fora de casa. E dentro, bem, acho que não tinha casa, afinal. Na calada da noite, botei meus livros favoritos, trabalhos, máquina de escrever e computadores no porta malas de minha banheira sobre rodas e mandei-me para o Bonfiglioli.
Havia morado lá durante bastante tempo. E, novamente, tudo mudara. É bem verdade que o traçado das ruas e vários conjuntos de casas eram basicamente os mesmos, mas a Av. Corifeu tinha, agora, três faixas em cada sentido e mais uma de estacionamento. Instalara-se um corredor de ônibus, no canteiro central da avenida, e os trólebus subiam em direção ao Terminal Vila Yara, em Osasco.
Sim, era bonito, os postes da fiação tinha design simples e moderno, mas sem serem espalhafatosos. Havia árvores grandes traçando sombra sobre a avenida. Mas aquilo não era mais meu bairro. Havia prédios -- ou melhor: caixas de fósforo empilhadas -- por todos os cantos da avenida, e a esquina com a Praça Elis Regina era, agora, marcada por placas indicando caminhos em direção à Raposo Tavares.
Fiz a conversão, entrei na praça. Agora, a praça tinha uma mão de cada lado, sendo canteiro de uma avenida. A avenida, então, continuava para onde havia um conjunto habitacional, em direção à Raposo. Vendo aquele trevo rodoviário, de longe, compreendi que muito do que conheci já não existia mais.
Entretanto, ainda via alguma vida lá. E os imóveis, embora simplórios e coalhados de apartementos pequenos, ainda representavam mais variedade e cores do que aqueles que se viam em Turmalina.
Me hospedei na casa de um amigo que morava por aquelas bandas e, como não ia lá há tempos, perguntei o que ocorria. Responde-me ele que aquilo tudo fôra consequência da mudança de zoneamento e alta demanda por parte das construtoras devido à construção de uma estação de metrô no Largo do Bonfiglioli.
Walfredo, esse meu amigo, ainda me disse que lá para cima até as ruas estavam irreconhecíveis, embora tudo fosse bonito e arborizado.
Conformei-me.
Aguardei pela noite. Fiquei a observar o movimento. Tudo era entra e sai dos prédios e tráfego entre Raposo e Corifeu. Às dez, tudo começou a silenciar. Só então dei de ombros, ri e notei que, no fundo, o bairro não perdera sua vocação suburbana e achei ali, em um dos maiores defeitos do bairro, a identificação com uma parte de mim e da minha vida.
Quiçá vivamos só dos defeitos!
domingo, 2 de março de 2014
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
Realidade bagunçada
Há muito já precisava tirar o pó dessas teclas. E o pó dos caminhos do cérebro, entumecidos na lama da confusão. De um lado a realidade chapada, do outro a exacerbadamente surrealista. É, porém, assunto para outros textos, essa mazela. Uma divertida moça me lembrou do Notepad, à soleira dos portões do prédio da Uninove, na Barra Funda, onde, empurrado por quatro ventiladores fiz minha Fuvest; logo, precisei escrever. Vocês sabem, redação de vestibular não ganha prêmios literários, mas tudo bem: nem grandes escritores costumam ganhá-los, também.
Júlio de Junho Machado, em suas rondas pela cidade, descia a Avenida Pompéia. Tinha comprado o pão e matutava intermitentemente entre prazer próprio e a vida humana -- e por causa desses 'gaps', tinha tido inúmeros problemas para se organizar. Sua literatura vertera em surrealismo. Não que as formas necessariamente derretessem em sua mente -- o que era bem capaz de acontecer no calor de São Paulo --, podiam cogelar. Tanto faria, ele descrevia o mar a partir de uma torre onde só ele poderia subir.
Mas estávamos longe de Santos. E seus escritores, da mesma forma, bem longe do mar borbulhante que lhe reinava a alma. Seu apartamento na Cardoso de Almeida era pequeno, modesto e tinha uma janela para a rede aérea dos trólebus. E por ali via, entre uma e outra xícara de chá, o correr das alavancas dos elétricos em plena faísca, rumo a Machado de Assis. Entre um filme de Truffaut e um disco do Chet Baker, agitava algum Rolling Stones e, eventualmente, dormia dançando Gymnopedie.
Dançava com o ar e acordava fumando cigarro com o travesseiro. O sol tornava o cérebro de Júlio lento, mas, eventualmente, ele se levanta, contempla o cinzeiro, a janela e o travesseiro e começa a embaralhar as cartas de sua mente quase furando os discos de Satie. Sentia-se metido em um paletó e uma camisa de flanela, mas o sol de fora bate os trinta e Dali se torna realista. Teimava com a sua existência, como poderia não ser assim, Júlio?
De qualquer forma, a vida anima os ossos, principalmente em tempos de geladeira vazia e conta bancária zerada. E Júlio, especialista em química forense, precisava estar às dez em um local que visitaria durante dois dias, em duas rodadas de perguntas e diálogos rígidos de múltipla escolha. Vestibular para química, na Universidade Estadual de Vila Comercial. O dinheiro da garantia estava acabando, mas Júlio tinha modo particular de enxergar a sorte.
Então, abaixo de uma árvore, em seu primeiro dia de exame, fumava um Old Eight, cigarrete paraguaio. Drogado pelo alcatrão plantado em conserva de mictório reciclado, observou o horizonte uma, duas... dez vezes, até defrontar-se com o jeito desconjuntado e afetivo de uma antiga colega. Ana Letícia. Conversaram intermitentemente. E ao fim do exame, todos estavam ali. Júlio, entretanto, continuava fitando o horizonte e imitando Woody Allen entre uma frase e outra.
Júlio, como escritor, era um chato. Observava detalhes inconvenientes e, ainda por cima, tinha sagitário como ascendente de seu signo. Os convivas riam, e Júlio também, embora se corroesse sem saber se riam dele ou com ele. Eventualmente, seria, entretanto, convidado ao bar. Talvez não fosse a melhor das fortunas, porém não era do tipo que fugia de um ácido etílico.
No segundo dia, então, estava marcado o bar. Júlio saiu da prova, colocou seu óculos à lapela e sentou-se nas escadas do prédio. Pensara em esquecer tudo e voltar ao seu apartamento. Pensava à parte. Não que fosse contrário ou a favor de seus novos amigos militantes, porém pensava em fervilhar menos, já que tão poucas certezas tinha para empunhar bandeiras.
Uma moça simpática, de olhos azulados e doces o recebeu na roda de conhecidos que antecedia o bar. Era Helena. Divertidíssima que era, ria-se dos comentários sarcásticos de Júlio, que apesar de ser bem recebido, sentia que seu dial não andava na estação certa. Eventualmente "meio-contava" uma história dentre o burburinho. Quase quieto, fôra ao bar, então.
Junho Machado conheceu seu lado radical, embora apenas durante as retóricas apoiadas pelo cigarro entre os dedos. Gostava de ouvir, e como ouvinte, anotava em sua memória o que mais pudesse interessar a si mesmo e à resolução de sua confusão, eventualmente guardando algo mais, se o dinheiro apertasse tanto ao ponto de ser necessário escrever um livro de auto-ajuda.
Sabe-se lá como, Junho amanheceu em sua cama. Apagou os acontecimentos, mas lembrou das principais linhas de seu caderno mental. Tratou de articula-las em uma obra de arte hermética pós-moderna e desafiadora aos padrões linguísticos. Enviou o resultado final a sua editora, Karine Ludovyko e seu amigo escritor, Alberto Tonyk.
Karine trouxe-o ao céu. Em sua carta em resposta, fez Júlio beija-la na boca com palavras doces e incentivos. Uma pena que os encontros pessoais fossem uma troca de conhecimentos sobre lojas de roupa e as experiências pessoais -- de Karine, claro. Ela elogiou-o e prometeu novamente a coluna que Júlio aguardava há sete anos no jornal do bairro.
Tonyk, entretanto, trouxe-o ao inferno e o fez pegar o elevador para a terra. Dizia em termos censurados, porque senão o politicamente correto acabaria por me censurar o texto todo, que as figuras coloridas navegando em um céu de matiz variável e infinito era digna de desfilar domingo na Av. Paulista e que se Beatles era referência, era bom esquecer a literatura e virar músico. Pôs-se, no final da correspondência, a revirar a semântica de cada literato até levar Júlio a um sono profundo de pesadelo garantido.
Era, porém, comum. Alberto, ao tomar cerveja com Júlio normalmente era calmo e sarcástico. Sua paciência oriental permitia suportar as lamúrias quase femininas de Júlio, quando este tomava um fora. Só que Alberto, quando lia, esperava encontrar James Joyce, pois, como dizia, se quisesse ler sessão da tarde em texto, compraria Paulo Coelho.
O equilíbrio era estonteante. Karina o levava ao olimpo dos escritores e Alberto ao inferno dos jornalistas contemporâneos. Com isso, se tornava barata tonta prensada entre dois extremos. Poderia se defender? Não. O que defender, então?
O tempo passou. Júlio por pouco não passara e agora estava novamente trajado de policial civil, caçando pedaços de ossos e pele em cenas grotescas. Seu estômago desde muito cedo treinou-se para tal, já que em sua época Menudos era moda na TV. Não se reprimiu e entregou três relatórios de cena de crime em menos de uma semana. Deu um tempo na máquina. Arriscava linhas tortas, mas acabava sempre descrevendo a rotina do embalsamento dos mortos.
Achou um caminho, porém. Não queria defender a passagem zero para os ônibus da cidade ou a democratização no uso do escorregador. Achava isso muita responsabilidade e incompatível com seu modo leviano de ver o mundo. Certa vez iniciara uma campanha em prol do retorno do jornal do bairro às maiores bancas. Uma das poucas causas maiores que sua casa, mas largou-a, depois, na mão de estudantes e moradores mais inflamados. Seu caminho, então, foi defender a vida como ela pode ser vivida.
Não queria mais saber dos padrões. Fazia um estilo de mistureba, de terninho e camisa regata adaptada, na maior feijoada adaptada ao clima tropical, lançava seus comentários sarcásticos e sua visão pessimista, mas absurda e hilária do mundo. E achou em seu defeito o modo mais improvável de conquistar as pessoas. Lembrou de quando conversara com Helena. Afinal, na síntese, ainda era reclamão, mas ao menos fazia com que seus interlocutores rissem.
Conformou-se com o fato de que as pessoas preferem viver de risadas. E quem pode culpa-las? Já se afundam em cerveja quando sofrem perdas materiais, morais. Se descuidam quando perdem o rumo. E tal sucede a todos aqueles animais engravatados, arcados e de cara fechada. Por que teríamos evoluído, se fosse para ser assim? Deuses nos deram nessa evolução laboratorial um sorriso e um olhar poderoso, que o usemos enquanto é tempo.
Júlio de Junho Machado, em suas rondas pela cidade, descia a Avenida Pompéia. Tinha comprado o pão e matutava intermitentemente entre prazer próprio e a vida humana -- e por causa desses 'gaps', tinha tido inúmeros problemas para se organizar. Sua literatura vertera em surrealismo. Não que as formas necessariamente derretessem em sua mente -- o que era bem capaz de acontecer no calor de São Paulo --, podiam cogelar. Tanto faria, ele descrevia o mar a partir de uma torre onde só ele poderia subir.
Mas estávamos longe de Santos. E seus escritores, da mesma forma, bem longe do mar borbulhante que lhe reinava a alma. Seu apartamento na Cardoso de Almeida era pequeno, modesto e tinha uma janela para a rede aérea dos trólebus. E por ali via, entre uma e outra xícara de chá, o correr das alavancas dos elétricos em plena faísca, rumo a Machado de Assis. Entre um filme de Truffaut e um disco do Chet Baker, agitava algum Rolling Stones e, eventualmente, dormia dançando Gymnopedie.
Dançava com o ar e acordava fumando cigarro com o travesseiro. O sol tornava o cérebro de Júlio lento, mas, eventualmente, ele se levanta, contempla o cinzeiro, a janela e o travesseiro e começa a embaralhar as cartas de sua mente quase furando os discos de Satie. Sentia-se metido em um paletó e uma camisa de flanela, mas o sol de fora bate os trinta e Dali se torna realista. Teimava com a sua existência, como poderia não ser assim, Júlio?
De qualquer forma, a vida anima os ossos, principalmente em tempos de geladeira vazia e conta bancária zerada. E Júlio, especialista em química forense, precisava estar às dez em um local que visitaria durante dois dias, em duas rodadas de perguntas e diálogos rígidos de múltipla escolha. Vestibular para química, na Universidade Estadual de Vila Comercial. O dinheiro da garantia estava acabando, mas Júlio tinha modo particular de enxergar a sorte.
Então, abaixo de uma árvore, em seu primeiro dia de exame, fumava um Old Eight, cigarrete paraguaio. Drogado pelo alcatrão plantado em conserva de mictório reciclado, observou o horizonte uma, duas... dez vezes, até defrontar-se com o jeito desconjuntado e afetivo de uma antiga colega. Ana Letícia. Conversaram intermitentemente. E ao fim do exame, todos estavam ali. Júlio, entretanto, continuava fitando o horizonte e imitando Woody Allen entre uma frase e outra.
Júlio, como escritor, era um chato. Observava detalhes inconvenientes e, ainda por cima, tinha sagitário como ascendente de seu signo. Os convivas riam, e Júlio também, embora se corroesse sem saber se riam dele ou com ele. Eventualmente, seria, entretanto, convidado ao bar. Talvez não fosse a melhor das fortunas, porém não era do tipo que fugia de um ácido etílico.
No segundo dia, então, estava marcado o bar. Júlio saiu da prova, colocou seu óculos à lapela e sentou-se nas escadas do prédio. Pensara em esquecer tudo e voltar ao seu apartamento. Pensava à parte. Não que fosse contrário ou a favor de seus novos amigos militantes, porém pensava em fervilhar menos, já que tão poucas certezas tinha para empunhar bandeiras.
Uma moça simpática, de olhos azulados e doces o recebeu na roda de conhecidos que antecedia o bar. Era Helena. Divertidíssima que era, ria-se dos comentários sarcásticos de Júlio, que apesar de ser bem recebido, sentia que seu dial não andava na estação certa. Eventualmente "meio-contava" uma história dentre o burburinho. Quase quieto, fôra ao bar, então.
Junho Machado conheceu seu lado radical, embora apenas durante as retóricas apoiadas pelo cigarro entre os dedos. Gostava de ouvir, e como ouvinte, anotava em sua memória o que mais pudesse interessar a si mesmo e à resolução de sua confusão, eventualmente guardando algo mais, se o dinheiro apertasse tanto ao ponto de ser necessário escrever um livro de auto-ajuda.
Sabe-se lá como, Junho amanheceu em sua cama. Apagou os acontecimentos, mas lembrou das principais linhas de seu caderno mental. Tratou de articula-las em uma obra de arte hermética pós-moderna e desafiadora aos padrões linguísticos. Enviou o resultado final a sua editora, Karine Ludovyko e seu amigo escritor, Alberto Tonyk.
Karine trouxe-o ao céu. Em sua carta em resposta, fez Júlio beija-la na boca com palavras doces e incentivos. Uma pena que os encontros pessoais fossem uma troca de conhecimentos sobre lojas de roupa e as experiências pessoais -- de Karine, claro. Ela elogiou-o e prometeu novamente a coluna que Júlio aguardava há sete anos no jornal do bairro.
Tonyk, entretanto, trouxe-o ao inferno e o fez pegar o elevador para a terra. Dizia em termos censurados, porque senão o politicamente correto acabaria por me censurar o texto todo, que as figuras coloridas navegando em um céu de matiz variável e infinito era digna de desfilar domingo na Av. Paulista e que se Beatles era referência, era bom esquecer a literatura e virar músico. Pôs-se, no final da correspondência, a revirar a semântica de cada literato até levar Júlio a um sono profundo de pesadelo garantido.
Era, porém, comum. Alberto, ao tomar cerveja com Júlio normalmente era calmo e sarcástico. Sua paciência oriental permitia suportar as lamúrias quase femininas de Júlio, quando este tomava um fora. Só que Alberto, quando lia, esperava encontrar James Joyce, pois, como dizia, se quisesse ler sessão da tarde em texto, compraria Paulo Coelho.
O equilíbrio era estonteante. Karina o levava ao olimpo dos escritores e Alberto ao inferno dos jornalistas contemporâneos. Com isso, se tornava barata tonta prensada entre dois extremos. Poderia se defender? Não. O que defender, então?
O tempo passou. Júlio por pouco não passara e agora estava novamente trajado de policial civil, caçando pedaços de ossos e pele em cenas grotescas. Seu estômago desde muito cedo treinou-se para tal, já que em sua época Menudos era moda na TV. Não se reprimiu e entregou três relatórios de cena de crime em menos de uma semana. Deu um tempo na máquina. Arriscava linhas tortas, mas acabava sempre descrevendo a rotina do embalsamento dos mortos.
Achou um caminho, porém. Não queria defender a passagem zero para os ônibus da cidade ou a democratização no uso do escorregador. Achava isso muita responsabilidade e incompatível com seu modo leviano de ver o mundo. Certa vez iniciara uma campanha em prol do retorno do jornal do bairro às maiores bancas. Uma das poucas causas maiores que sua casa, mas largou-a, depois, na mão de estudantes e moradores mais inflamados. Seu caminho, então, foi defender a vida como ela pode ser vivida.
Não queria mais saber dos padrões. Fazia um estilo de mistureba, de terninho e camisa regata adaptada, na maior feijoada adaptada ao clima tropical, lançava seus comentários sarcásticos e sua visão pessimista, mas absurda e hilária do mundo. E achou em seu defeito o modo mais improvável de conquistar as pessoas. Lembrou de quando conversara com Helena. Afinal, na síntese, ainda era reclamão, mas ao menos fazia com que seus interlocutores rissem.
Conformou-se com o fato de que as pessoas preferem viver de risadas. E quem pode culpa-las? Já se afundam em cerveja quando sofrem perdas materiais, morais. Se descuidam quando perdem o rumo. E tal sucede a todos aqueles animais engravatados, arcados e de cara fechada. Por que teríamos evoluído, se fosse para ser assim? Deuses nos deram nessa evolução laboratorial um sorriso e um olhar poderoso, que o usemos enquanto é tempo.
sábado, 4 de janeiro de 2014
E, com uma dissertação furada, comemoro meu post de número duzentos
Cidade. Ruas, avenidas, carros e jazz. Familiar? Ainda procuro figurar. Dentre tanta confusão podia imaginar Júlio de Junho Machado entre um semáforo e outro com as mãos metidas no bolso. Fazia mais do que só fitar em vazio as grades dos edifícios e veículos. Pensava algo mais.
Quem o conhecia, facilmente te contaria, durante uma festa regada a discoteca e golas estendidas pela lapela dos blazers acinturados, que sucedia a Júlio de Junho era uma quebra de paradigma. Parecia que o passado o assombrava com regular frequência. Um escritor arrependido, amargado. Culto como algum Marcola.
De qualquer forma, seus vizinhos podiam jurar ouvi-lo berrar, por vezes, "não toque nessa porta" ou "João da Bomba, tu me pagas" -- o emprego correto da segunda pessoa dependia da intensidade da crise. Da Bomba poderia ser um discotequeiro das baladas de esquina daqueles remotos anos oitenta ou algum criminoso. Pelo jeito pecava por se entregar às noites regadas a Disco e cocaína, ou às tentações do poder conferido pela pólvora.
Por outro lado, supunham alguns que só se perdia nos olhos de Maryan Tonyk, uma húngara de família árabe que conhecera fazendo prova na PUC. Doce mas matadora, não poupava um nas ruas do Jardim Éfeso. Ela costumava andar de saiote preto às manhãs, na Avenida Ilium, exibindo um sorriso bobo, mas preciso. Perdeu-se na escola de artes, mas fez de Júlio seu escritor e assim estava feita.
Enfim, de uma forma ou de outra, Júlio estivera ou está detrás das grades. Se não se arrependera de dançar ao ritmo frenético de "Never Gonna Give You Up", acabaria cantando a música sozinho na rua, pensando nos olhos e no busto de Maryan. It goes, it comes. Júlio é como todos nós.
Quem o conhecia, facilmente te contaria, durante uma festa regada a discoteca e golas estendidas pela lapela dos blazers acinturados, que sucedia a Júlio de Junho era uma quebra de paradigma. Parecia que o passado o assombrava com regular frequência. Um escritor arrependido, amargado. Culto como algum Marcola.
De qualquer forma, seus vizinhos podiam jurar ouvi-lo berrar, por vezes, "não toque nessa porta" ou "João da Bomba, tu me pagas" -- o emprego correto da segunda pessoa dependia da intensidade da crise. Da Bomba poderia ser um discotequeiro das baladas de esquina daqueles remotos anos oitenta ou algum criminoso. Pelo jeito pecava por se entregar às noites regadas a Disco e cocaína, ou às tentações do poder conferido pela pólvora.
Por outro lado, supunham alguns que só se perdia nos olhos de Maryan Tonyk, uma húngara de família árabe que conhecera fazendo prova na PUC. Doce mas matadora, não poupava um nas ruas do Jardim Éfeso. Ela costumava andar de saiote preto às manhãs, na Avenida Ilium, exibindo um sorriso bobo, mas preciso. Perdeu-se na escola de artes, mas fez de Júlio seu escritor e assim estava feita.
Enfim, de uma forma ou de outra, Júlio estivera ou está detrás das grades. Se não se arrependera de dançar ao ritmo frenético de "Never Gonna Give You Up", acabaria cantando a música sozinho na rua, pensando nos olhos e no busto de Maryan. It goes, it comes. Júlio é como todos nós.
terça-feira, 1 de outubro de 2013
Algum amor para nós
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Minha juventude está chegando à metade que passa mais devagar. Ou depressa, a depender de quem observa ou com quem ocorre. E, apesar dos pesares, já tive diversas oportunidades de ver de tudo e observar como o mundo ao entorno absorve minha existência, existência de amigos e, principalmente, de casais felizes aleatórios.
Novamente, apesar de todos os pesares, é comum que amigos venham se consultar comigo à respeito dessa área tão complicada. Não creio que a cara de experiente que me atribuem se deva à barba, porque se qualquer coisa se devesse à minha barba, eu já estaria indicando shampoos contra a calvície. Probabile est que apesar dos pesares conheci bem as entranhas idealizadas do namoro. Bem, por tabela posso assegurar que sim.
Contudo, nada disse até o momento. E o leitor me pergunta: e daí? Se estivesse lendo isso no ônibus, certeza tenho de que a pessoa ao meu lado desceria e estaria eu lendo o texto até que que meu corpo vertesse em trincheiras de cálcio vazadas. Retornando, grande pergunta é, afinal de contas: qual a grande complicação?
Eis uma boa pergunta. A quem se propor a me explicar de forma científica, usando os termos da metodologia de mesmo nome, deixo meu respeito, que se não vale para comprar sequer um pão francês, ao menos vale a indicação para pessoas próximas que gostam do que digo, já que, como não o faço mal, há sempre quem goste.
A fórmula é nula. E um sentimento complexo, emergido da civilização acaba por ser uma das poucas coisas à qual não se atribui com ela, mas sem a qual viramos animais ou carcamanos poetenciais.
Mas alto lá! Disse que a fórmula é nula. Entretanto não ser tolo é regra. E isso, afirmo, é mais difícil do que se parece, quando a razão começa a ser perdida. Como reagir a isso? Uns se tornam frios, outros rígidos. Alguns outros permanecem incorrigíveis.
Tenho uma particular admiração pelos incorrigíveis. Eternos falhos em suas vidas, pelos padrões genéricos, mas acabam por dar um jeito de se acomodarem no mundo, satisfazendo um pouco as ambições. Aprendem a conciliar a razão ao emocional. Mas apanham feito cachorros no início, o que os leva, por vezes, a incubar idéias tortas sobre o viver, a civilização e a raça humana. E a velha história: quem muito toma na cabeça, às vezes se torna de vez insano.
Frios e rígidos são, em essência a mesma coisa. Não há forma simples de diferencia-los em um simples artigo, embora qualquer pessoa sensata que conversar com um ou com outra saberá identificar a diferença. Como não dou aulas no jardim da infância, não vejo grande necessidade em me estender nisso.
São um tipo bizarro, engraçado, já que buscam manter a razão na rédea curta e recrudescem frente ao mesmo minúsculo medo de perdê-la. Mais ou menos como aquele seu amigo que briga com você para o resto da vida, apenas porque não quer ir à montanha russa. Não se permite o mínimo sacrifício. Suicida-se lentamente para não se sacrificar um pouco em causa própria. Fala como se o mundo fosse acabar, quando fala. E se fala, é da desgraça que deixou acontecer, achando que poderia impedi-la. A grande desgraça pintada de batom.
Até o momento, tudo bonito. Mas proponho: por que não um meio termo? Ao invés de incorrigível putanheiro profissional (e depressivo nas horas vagas) ou rígido virgem de quarenta anos, porque apenas não deixar fluir o momento? Chamaria isso de semanismo. Diarismo já é profissão; por isso juro que semanismo só se fez o termo por puro problema etmológico.
Semanismo? Sim, um dia, uma semana. Oito dias. Para quem não tem certeza do que se colará na parede da memória com durepox ou superbonder; ou do que será enquadrado ali com molduras de aço com frisos de prata. Uma semana de carinho, um dia de sol juntos. No meio do tempo, um filme. Uns beijos... Eventualmente um sexo com algum amor. Para que tanta preocupação com o destinatário certo, se há quem morre sem saber o endereço desse tal?
Minha juventude está chegando à metade que passa mais devagar. Ou depressa, a depender de quem observa ou com quem ocorre. E, apesar dos pesares, já tive diversas oportunidades de ver de tudo e observar como o mundo ao entorno absorve minha existência, existência de amigos e, principalmente, de casais felizes aleatórios.
Novamente, apesar de todos os pesares, é comum que amigos venham se consultar comigo à respeito dessa área tão complicada. Não creio que a cara de experiente que me atribuem se deva à barba, porque se qualquer coisa se devesse à minha barba, eu já estaria indicando shampoos contra a calvície. Probabile est que apesar dos pesares conheci bem as entranhas idealizadas do namoro. Bem, por tabela posso assegurar que sim.
Contudo, nada disse até o momento. E o leitor me pergunta: e daí? Se estivesse lendo isso no ônibus, certeza tenho de que a pessoa ao meu lado desceria e estaria eu lendo o texto até que que meu corpo vertesse em trincheiras de cálcio vazadas. Retornando, grande pergunta é, afinal de contas: qual a grande complicação?
Eis uma boa pergunta. A quem se propor a me explicar de forma científica, usando os termos da metodologia de mesmo nome, deixo meu respeito, que se não vale para comprar sequer um pão francês, ao menos vale a indicação para pessoas próximas que gostam do que digo, já que, como não o faço mal, há sempre quem goste.
A fórmula é nula. E um sentimento complexo, emergido da civilização acaba por ser uma das poucas coisas à qual não se atribui com ela, mas sem a qual viramos animais ou carcamanos poetenciais.
Mas alto lá! Disse que a fórmula é nula. Entretanto não ser tolo é regra. E isso, afirmo, é mais difícil do que se parece, quando a razão começa a ser perdida. Como reagir a isso? Uns se tornam frios, outros rígidos. Alguns outros permanecem incorrigíveis.
Tenho uma particular admiração pelos incorrigíveis. Eternos falhos em suas vidas, pelos padrões genéricos, mas acabam por dar um jeito de se acomodarem no mundo, satisfazendo um pouco as ambições. Aprendem a conciliar a razão ao emocional. Mas apanham feito cachorros no início, o que os leva, por vezes, a incubar idéias tortas sobre o viver, a civilização e a raça humana. E a velha história: quem muito toma na cabeça, às vezes se torna de vez insano.
Frios e rígidos são, em essência a mesma coisa. Não há forma simples de diferencia-los em um simples artigo, embora qualquer pessoa sensata que conversar com um ou com outra saberá identificar a diferença. Como não dou aulas no jardim da infância, não vejo grande necessidade em me estender nisso.
São um tipo bizarro, engraçado, já que buscam manter a razão na rédea curta e recrudescem frente ao mesmo minúsculo medo de perdê-la. Mais ou menos como aquele seu amigo que briga com você para o resto da vida, apenas porque não quer ir à montanha russa. Não se permite o mínimo sacrifício. Suicida-se lentamente para não se sacrificar um pouco em causa própria. Fala como se o mundo fosse acabar, quando fala. E se fala, é da desgraça que deixou acontecer, achando que poderia impedi-la. A grande desgraça pintada de batom.
Até o momento, tudo bonito. Mas proponho: por que não um meio termo? Ao invés de incorrigível putanheiro profissional (e depressivo nas horas vagas) ou rígido virgem de quarenta anos, porque apenas não deixar fluir o momento? Chamaria isso de semanismo. Diarismo já é profissão; por isso juro que semanismo só se fez o termo por puro problema etmológico.
Semanismo? Sim, um dia, uma semana. Oito dias. Para quem não tem certeza do que se colará na parede da memória com durepox ou superbonder; ou do que será enquadrado ali com molduras de aço com frisos de prata. Uma semana de carinho, um dia de sol juntos. No meio do tempo, um filme. Uns beijos... Eventualmente um sexo com algum amor. Para que tanta preocupação com o destinatário certo, se há quem morre sem saber o endereço desse tal?
sábado, 14 de setembro de 2013
Pequenas Coragens
O que não faz um pouco de cerveja? No limite do ser humano médio sempre está a boa breja que vale a semana... Todos sentados na mesa de madeira sem pensar na utilidade das palavras... Metade delas se perde ao som do motor do Volksbus, que passa levantando a poeira da sargeta; a outra em conversações desconexas. Tudo começa aí, aquela boa gasolina à mente/alma/soul/espírito/qualquercoisaquepreenchaoseuser.
Alguma vez você já sentiu que poderia morrer que tava tudo beleza? Nosso personagem já, acho. Diz-se pelo vocábulo tradicionalmente proferido pelo clã da erva seca que tudo o que precisamos é de vinte segundos de coragem insana. Ora, como jovem, não posso pensar em uma verdade tão grande. Mas a alma precisa estar abastecida. Sua vó já dizia: saco vazio não para em pé. A alma funciona do mesmo jeito.
Ou seja, o depressivo/deprimido no sentido popularesco da coisa é, por tabela, um covarde registrado. Ora, antes de se sentir ofendido, pense que falo isso por experiência própria.
Mas voltando ao prumo do assunto, digo que pequenas coisas (ou pequenas doses, dependendo da composição do sangue e da massa encefálica do cidadão), são, por vezes vistas como coisas que valem a vida fazer a pena. Claro, não uma ou outra, mas todas em conjunto.
E, de repente, em uma noite de felicidade depressiva (santo paradoxo, meu caro), você se acha com o pão quente no colo e umas idéias na cabeça. É tarde, para os padrões suburbanos e ser assaltado a mão armada é uma provável sina, como o bom paulistano sabe. O que você faz com vinte segundos de coragem alimentada à álcool (porque gasolina tá muito cara)? Claro, você ameaça mandar o filho da puta atirar se for se assaltar... E você morrerá com o pão na mão.
As notícias dirão, que um cidadão morreu, levando pão quente para casa. Se o que você é para os amigos não é imortal, ao menos ser morto com o pão quente no colo, voltando para casa após a cervejada, há de te fazer minimamente memorável.
... Talvez...
Alguma vez você já sentiu que poderia morrer que tava tudo beleza? Nosso personagem já, acho. Diz-se pelo vocábulo tradicionalmente proferido pelo clã da erva seca que tudo o que precisamos é de vinte segundos de coragem insana. Ora, como jovem, não posso pensar em uma verdade tão grande. Mas a alma precisa estar abastecida. Sua vó já dizia: saco vazio não para em pé. A alma funciona do mesmo jeito.
Ou seja, o depressivo/deprimido no sentido popularesco da coisa é, por tabela, um covarde registrado. Ora, antes de se sentir ofendido, pense que falo isso por experiência própria.
Mas voltando ao prumo do assunto, digo que pequenas coisas (ou pequenas doses, dependendo da composição do sangue e da massa encefálica do cidadão), são, por vezes vistas como coisas que valem a vida fazer a pena. Claro, não uma ou outra, mas todas em conjunto.
E, de repente, em uma noite de felicidade depressiva (santo paradoxo, meu caro), você se acha com o pão quente no colo e umas idéias na cabeça. É tarde, para os padrões suburbanos e ser assaltado a mão armada é uma provável sina, como o bom paulistano sabe. O que você faz com vinte segundos de coragem alimentada à álcool (porque gasolina tá muito cara)? Claro, você ameaça mandar o filho da puta atirar se for se assaltar... E você morrerá com o pão na mão.
As notícias dirão, que um cidadão morreu, levando pão quente para casa. Se o que você é para os amigos não é imortal, ao menos ser morto com o pão quente no colo, voltando para casa após a cervejada, há de te fazer minimamente memorável.
... Talvez...
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
Domínio
É absolutamente inegável que o blog teve avanços nos últimos anos. Tanto literários, como técnicos. Isso desde a época em que deixei o layout bomba padrão, para adotar um simples, com um banner no topo (2008) e, posteriormente, adotar o famoso layout "soco no olho" (2010), lembrado pelo fundo verde e letras brancas (ou cores parecidas em semelhante ordem). Em 2011, o blog ganhou uma layoutação baseada no projeto do jornal da ETEC, para, logo depois, adotar uma dissidência deste layout, que é atual, como vêem.
Literariamente nem preciso explicar. Basta dar uma rápida consultada no histórico, à direita. Não que eu pessoalmente recomende a experiência (e, também, duvido que alguém teria a santa paciência de ler os textos de um, vos digo, moleque). Só por isso, poderia nomear o blog de "crônicas de um pirralho revoltado", porque, se para mim é vergonhoso, ao menos para os outros pode ser fonte de muita risada. Bem, é justo.
Já me chamaram de introvertido, direitoso, rancoroso e, claro, ignorate. Obviamente, muito disso acompanhado pelo adjetivo companheiro de todas as horas, "reacionário". Mas não me ofendo, ao menos hoje. Esse espaço tão quieto, nos últimos tempos, é sombra de um monstro lido por muitos alunos do Porto União, que, obviamente liam rindo ou rangendo os dentes. Ao menos, valeu entender a dimensão que um espaço na internet pode ter.
Sei bem, já paguei bem a língua com coisas que escrevi aqui. E não uma ou duas vezes. Se bem me lembro, foi mais de cinco. Hoje acredito que isso valeria ao emissor da crítica um maço e um abraço, já que é tão difícil entender o mecanismo que rege a mudança de pensamento.
Mas sem resentimentos. O tempo está maluco, 2013 voou, mas trouxe com ele chegou uma pequena mudança ao blog. Agora, finalmente, estou usando um domínio próprio. O antigo continua valendo, mas não estou certo se o leitor RSS vai continuar funcionando, provavelmente vai, mas é o domínio novo, ora. rs
http://blog.prppedro.net.br
Abraços,
T.R.P.
Literariamente nem preciso explicar. Basta dar uma rápida consultada no histórico, à direita. Não que eu pessoalmente recomende a experiência (e, também, duvido que alguém teria a santa paciência de ler os textos de um, vos digo, moleque). Só por isso, poderia nomear o blog de "crônicas de um pirralho revoltado", porque, se para mim é vergonhoso, ao menos para os outros pode ser fonte de muita risada. Bem, é justo.
Já me chamaram de introvertido, direitoso, rancoroso e, claro, ignorate. Obviamente, muito disso acompanhado pelo adjetivo companheiro de todas as horas, "reacionário". Mas não me ofendo, ao menos hoje. Esse espaço tão quieto, nos últimos tempos, é sombra de um monstro lido por muitos alunos do Porto União, que, obviamente liam rindo ou rangendo os dentes. Ao menos, valeu entender a dimensão que um espaço na internet pode ter.
Sei bem, já paguei bem a língua com coisas que escrevi aqui. E não uma ou duas vezes. Se bem me lembro, foi mais de cinco. Hoje acredito que isso valeria ao emissor da crítica um maço e um abraço, já que é tão difícil entender o mecanismo que rege a mudança de pensamento.
Mas sem resentimentos. O tempo está maluco, 2013 voou, mas trouxe com ele chegou uma pequena mudança ao blog. Agora, finalmente, estou usando um domínio próprio. O antigo continua valendo, mas não estou certo se o leitor RSS vai continuar funcionando, provavelmente vai, mas é o domínio novo, ora. rs
http://blog.prppedro.net.br
Abraços,
T.R.P.
domingo, 24 de março de 2013
Ofício
Uma justificativa ao suposto fracasso
Não é novidade para ninguém que o ofício de qualquer ser humano é viver. Não importa muito como. Cada qual tem seu próprio jeito de ser e viver e o que diz respeito a nossa vida, só a nós compete. Sim, um perfeito discurso de Orkut, no qual só falta os erros gramaticais. Ou faltam. Pronto, temos um.
Porém, gosto de escrever sobre minha falha jornada, porém, por "eufemiotimismo" prefiro chamar de "fase de testes". Gosto de citar meu pai, que diz em um poema de sua juventude "embalaram-me monstro". Se filho de peixe, peixinho é, de alguma forma muito tenho de meu pai, faltando apenas a vida por vir.
O ofício aqui, não é o de sobrevivência -- esse trabalha apenas com hipóteses e dados binários e intermináveis circuitos. O ofício a que me refiro é a tarefa de acreditar em modelos que, decididamente, não funcionam mais. E, claro, não poderia ser fruto de qualquer outra peleja que não fosse aquela velha entre coração e sanidade.
É fácil agir com sanidade se o coração pesa leve. Mas quem determina isso não somos nós, é a nossa casa. Ainda que eu ache que os duros são apenas pessoas que se fazem de secas por cima do coração mole... Mas sem delongas e antes que isso lacrimeje piegas, tenho como objetivo explicar porque me é difícil não escrever.
Escrevo porque há papel, pois se não houvesse, fala-lo-ía. Ora, isso acabou. Ler todos lêem, mas e procurar o sentimento? Em época de leves penas e plumas viajantes, a quem escrever? Todas ocupadas, pessoas lêem correspondências durante a madrugada e apressadamente respondem. Ainda sim. Faço o que sei fazer, e se não faz questão de a meu patamar subir, procuro então outra deusa. Enquanto espírito não faltar, palavras também não irão.
Estou, provavelmente apto a me tornar um fracasso nato. Mas em "A lógica do estepe" fui muito claro, existem outras formas de se resolver problemas passionais. E sempre existem produtos mais baratos no mercado.
Não é novidade para ninguém que o ofício de qualquer ser humano é viver. Não importa muito como. Cada qual tem seu próprio jeito de ser e viver e o que diz respeito a nossa vida, só a nós compete. Sim, um perfeito discurso de Orkut, no qual só falta os erros gramaticais. Ou faltam. Pronto, temos um.
Porém, gosto de escrever sobre minha falha jornada, porém, por "eufemiotimismo" prefiro chamar de "fase de testes". Gosto de citar meu pai, que diz em um poema de sua juventude "embalaram-me monstro". Se filho de peixe, peixinho é, de alguma forma muito tenho de meu pai, faltando apenas a vida por vir.
O ofício aqui, não é o de sobrevivência -- esse trabalha apenas com hipóteses e dados binários e intermináveis circuitos. O ofício a que me refiro é a tarefa de acreditar em modelos que, decididamente, não funcionam mais. E, claro, não poderia ser fruto de qualquer outra peleja que não fosse aquela velha entre coração e sanidade.
É fácil agir com sanidade se o coração pesa leve. Mas quem determina isso não somos nós, é a nossa casa. Ainda que eu ache que os duros são apenas pessoas que se fazem de secas por cima do coração mole... Mas sem delongas e antes que isso lacrimeje piegas, tenho como objetivo explicar porque me é difícil não escrever.
Escrevo porque há papel, pois se não houvesse, fala-lo-ía. Ora, isso acabou. Ler todos lêem, mas e procurar o sentimento? Em época de leves penas e plumas viajantes, a quem escrever? Todas ocupadas, pessoas lêem correspondências durante a madrugada e apressadamente respondem. Ainda sim. Faço o que sei fazer, e se não faz questão de a meu patamar subir, procuro então outra deusa. Enquanto espírito não faltar, palavras também não irão.
Estou, provavelmente apto a me tornar um fracasso nato. Mas em "A lógica do estepe" fui muito claro, existem outras formas de se resolver problemas passionais. E sempre existem produtos mais baratos no mercado.
sexta-feira, 15 de março de 2013
Vivacidade
Nota: Esse texto foi escrito por mim, em homenagem à Bianca Ferro
A vivacidade aflora eu seus olhos, garota. Como consegue despontar tanto na beleza? Terá sido obra de acordo com os colegas do Olimpo? Ou uma deusa que, simplesmente, desceu dos céus para caminhar um pouco nas calçadas esburacadas de Sampa? São essas as perguntas de uma mente boquiaberta, frente ao seu brilho.
Em várias épocas, dizia-se que pensamento era a beleza. E viviam por aí promovendo a mensagem de que o caráter era tudo sobre a pessoa. Inclui-se aí o que falam a respeito de como se deve desencadear uma paixão -- pelas teses instituídas é pelo olhar aguçado que julga mais páginas do que capa. Plena verdade, beleza não é tudo.
Muitos livros de capas feias guardam consigo as belezas da humanidade. Mas de que adianta um livro ruim de capa bonita? Estou certo de que quem dota uma capa de beleza e de brilho, em um ato de muito amor, não deixaria que só existisse uma capa! Alias, que criador sonha com uma lombada vazia?
Na arte de sua fotografia, o brilho de sua mente vem aos olhos e conjugados a este seu irrestível corpo de deusa, um rosto de curvas tão graciosas e um cabelo quase cacheado são de destruir a mente do mais pacato cidadão. Bem, você sabe disso! Deusas conhecem seus poderes.
Olhos bem abertos e lúcidos de inteligência não negam a essência matadora de sua pessoa. Matando sonhos e substituindo-os por outros melhores. Mais apaixonante do que uma linda mulher é uma linda mulher sagaz e consciente de seus poderes como deusa.
Abraço!
A vivacidade aflora eu seus olhos, garota. Como consegue despontar tanto na beleza? Terá sido obra de acordo com os colegas do Olimpo? Ou uma deusa que, simplesmente, desceu dos céus para caminhar um pouco nas calçadas esburacadas de Sampa? São essas as perguntas de uma mente boquiaberta, frente ao seu brilho.
Em várias épocas, dizia-se que pensamento era a beleza. E viviam por aí promovendo a mensagem de que o caráter era tudo sobre a pessoa. Inclui-se aí o que falam a respeito de como se deve desencadear uma paixão -- pelas teses instituídas é pelo olhar aguçado que julga mais páginas do que capa. Plena verdade, beleza não é tudo.
Muitos livros de capas feias guardam consigo as belezas da humanidade. Mas de que adianta um livro ruim de capa bonita? Estou certo de que quem dota uma capa de beleza e de brilho, em um ato de muito amor, não deixaria que só existisse uma capa! Alias, que criador sonha com uma lombada vazia?
Na arte de sua fotografia, o brilho de sua mente vem aos olhos e conjugados a este seu irrestível corpo de deusa, um rosto de curvas tão graciosas e um cabelo quase cacheado são de destruir a mente do mais pacato cidadão. Bem, você sabe disso! Deusas conhecem seus poderes.
Olhos bem abertos e lúcidos de inteligência não negam a essência matadora de sua pessoa. Matando sonhos e substituindo-os por outros melhores. Mais apaixonante do que uma linda mulher é uma linda mulher sagaz e consciente de seus poderes como deusa.
Abraço!
sábado, 5 de janeiro de 2013
A "lógica do estepe"
Mais uma vez, dentro de um curto período de tempo, venho aqui falar um pouco sobre o que me vem à cabeça. Tenho certeza que dessa vez, porém, encontrarei mais pares dentro do que penso do que em minhas nebulosas metáforas pessoais. Venho tratar sobre o que costumo chamar de "lógica do estepe". Primeiramente, já afirmo que se trato de amor, aqui ele é a figura universal que da mesma forma se manifestou durante toda a sua convivência com a humanidade. Descarto as novas formas que ele possa tomar, exceto quanto a algumas das flexibilidades que nossos tempos conferem aos que se encorajam em conseguir a mão de suas amadas com base na lei da oferta e da procura, que, nesse setor, se aplica de uma forma sutilmente diferente. Mas não convém explicar isso nesse momento.
Começo analisando o objeto estepe. A princípio, não é de se discordar do fato de que o estepe é um item de segurança. E, por tal motivo, é dono de uma enorme fatia de importância. Entretanto, por não rodar direto no asfalto, jamais há de ser o pneu mais importante de um carro. Muito pelo contrário, só se lembra de sua existência, quando o aventureiro já anexado ao eixo falha. A explicação é óbvia, mas é a parte mais importante do "ser estepe".
O "aventureiro" - note aspas - ou, simplesmente pneu instalado, deve, inicialmente rodar sem menores problemas, devendo, após algum tempo, começar a apresentar algum desgaste. O estepe está novo em folha, porém, pela estabilidade adquirida no desgaste equalizado em relação aos outros pneus e a facilidade com um solo específico não encontrada na estepe, ainda torna-o revezável com o estepe em muitos casos. É, isso é um pouco difícil de se entender, mas espero, porém, conseguir elucidar qualquer dúvida possível que possa resultar dessa metáfora.
Normalmente, ou ao menos nos tempos em que os pneus dispensam maiores tratamentos, o fim da vida útil de um pneu significa recauchutagem e a troca por um novo exemplar. O estepe se tornaria o pneu principal, então. Lógica simples. Porém, não é assim que funciona. Pensemos melhor, pensemos como na Fórmula 1. Há pneus para chuva, para piso seco... Enfim, varia pela situação enfrentada pelo veículo. Penso que a situação se faz parecida: o pneu substituto fará melhor o trabalho e obterá melhor desempenho na nova situação.
Ainda sim, ainda faltaria algum pedaço à "lógica do estepe". Ah, sim, claro: o pensamento que a rege e preferência forçada por algum tipo de pneu. Que bem entendo ouvindo, mas pouco entendo pensando. E é neste ponto em que precisarei largar mão da metáfora e alçar breve vôo ao reino humano para entender de forma não mecânica como os sentimentos humanos são capazes de produzir os efeitos da "lógica do estepe".
Primeiro: não se pode ignorar que uma ausência incentiva o ser na procura de novos caminhos que supram os efeitos causados pela ausência. Segundo: tampouco pode se ignorar que em um momento de ausência não se possa encontrar qualquer caminho que supra suas necessidades "espirituais" (aqui entre aspas, pois não consigo achar termo melhor, no corrente momento) ou - importante - até supere-as! E nesse patamar de procura, encontro de algo diferente - mas satisfatório - é que se forma a "lógica do estepe". Encontra-se um potencial substituto, que é colocado, então, em teste.
Mas os testes jamais terminarão. Ou muito demorarão para fazê-lo. Pois muito da lógica estepe se estabelece sobre a segurança - ou a imagem dela - construída sobre o produto atual e que, decididamente pode não existir ou simplesmente ser uma idéia forçada, apenas baseada no intuito de não ter que arcar com as consquências de uma nova substituição. Isto, senhoras e senhores, é a lógica capaz de transformar muitos amantes em eternos servidores. Processo o qual muitos conhecem por outro nome. Processo o qual, muitos sequer sabem estar colocando em prática. Processo o qual muitos são submetidos sem saber muito o que fazer.
O "amor de estepe" pode não ser um produto de mercado. Mas arrisco-me a dizer que quase está lá, de tão comum que sua expressão no meio é. Reflete um inflexível caso em que o amor se expressa de forma tradicional levando-o à quase servir a amada. Mas dentre tanto velho nevoeiro, os novos tempos dão a saída: o pequeno amor sem compromisso, nos permite viver um pouco menos como estepes, que só chuva tomam, sem nunca conhecer o chão.
Começo analisando o objeto estepe. A princípio, não é de se discordar do fato de que o estepe é um item de segurança. E, por tal motivo, é dono de uma enorme fatia de importância. Entretanto, por não rodar direto no asfalto, jamais há de ser o pneu mais importante de um carro. Muito pelo contrário, só se lembra de sua existência, quando o aventureiro já anexado ao eixo falha. A explicação é óbvia, mas é a parte mais importante do "ser estepe".
O "aventureiro" - note aspas - ou, simplesmente pneu instalado, deve, inicialmente rodar sem menores problemas, devendo, após algum tempo, começar a apresentar algum desgaste. O estepe está novo em folha, porém, pela estabilidade adquirida no desgaste equalizado em relação aos outros pneus e a facilidade com um solo específico não encontrada na estepe, ainda torna-o revezável com o estepe em muitos casos. É, isso é um pouco difícil de se entender, mas espero, porém, conseguir elucidar qualquer dúvida possível que possa resultar dessa metáfora.
Normalmente, ou ao menos nos tempos em que os pneus dispensam maiores tratamentos, o fim da vida útil de um pneu significa recauchutagem e a troca por um novo exemplar. O estepe se tornaria o pneu principal, então. Lógica simples. Porém, não é assim que funciona. Pensemos melhor, pensemos como na Fórmula 1. Há pneus para chuva, para piso seco... Enfim, varia pela situação enfrentada pelo veículo. Penso que a situação se faz parecida: o pneu substituto fará melhor o trabalho e obterá melhor desempenho na nova situação.
Ainda sim, ainda faltaria algum pedaço à "lógica do estepe". Ah, sim, claro: o pensamento que a rege e preferência forçada por algum tipo de pneu. Que bem entendo ouvindo, mas pouco entendo pensando. E é neste ponto em que precisarei largar mão da metáfora e alçar breve vôo ao reino humano para entender de forma não mecânica como os sentimentos humanos são capazes de produzir os efeitos da "lógica do estepe".
Primeiro: não se pode ignorar que uma ausência incentiva o ser na procura de novos caminhos que supram os efeitos causados pela ausência. Segundo: tampouco pode se ignorar que em um momento de ausência não se possa encontrar qualquer caminho que supra suas necessidades "espirituais" (aqui entre aspas, pois não consigo achar termo melhor, no corrente momento) ou - importante - até supere-as! E nesse patamar de procura, encontro de algo diferente - mas satisfatório - é que se forma a "lógica do estepe". Encontra-se um potencial substituto, que é colocado, então, em teste.
Mas os testes jamais terminarão. Ou muito demorarão para fazê-lo. Pois muito da lógica estepe se estabelece sobre a segurança - ou a imagem dela - construída sobre o produto atual e que, decididamente pode não existir ou simplesmente ser uma idéia forçada, apenas baseada no intuito de não ter que arcar com as consquências de uma nova substituição. Isto, senhoras e senhores, é a lógica capaz de transformar muitos amantes em eternos servidores. Processo o qual muitos conhecem por outro nome. Processo o qual, muitos sequer sabem estar colocando em prática. Processo o qual muitos são submetidos sem saber muito o que fazer.
O "amor de estepe" pode não ser um produto de mercado. Mas arrisco-me a dizer que quase está lá, de tão comum que sua expressão no meio é. Reflete um inflexível caso em que o amor se expressa de forma tradicional levando-o à quase servir a amada. Mas dentre tanto velho nevoeiro, os novos tempos dão a saída: o pequeno amor sem compromisso, nos permite viver um pouco menos como estepes, que só chuva tomam, sem nunca conhecer o chão.
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
Cruzando os céus do novo ano
"The bad news is time flies. The good news is you're the pilot"
-- Michael Althsuler
Parece que foi ontem, mas já há quatro dias em que o ano de 2013 se faz presente nos calendários ao redor do mundo. Ajusta-se o altímetro, novo nível alcançado, mais uma marca do tempo nas cadernetas de cada um. Passa-se mais um teste e elabora-se outro rascunho. Se renovam esperanças, se consolida uma nova era, ao avanço do tempo.
O tempo voa, jamais para. E, consigo, leva o passado, para bem ou para mal, irreparável, imutável. Três vivas à imutabilidade do passado! ainda friso. Esse conjunto de experiências que para trás deixa-se e os efeitos consequentes de cada atividade é a formação de um sujeito.
Como seria se a máquina do tempo desse a chance de se modificar o passado consolidado? Quiçás, diversas vidas haveriam de ser poupadas, aviões não haveriam caído, a revolução francesa não se haveria travado. Mas se não é, a estabilidade, do ser humano, parte; é justamente sua contraparte que invoca a arte. Sem dor não há arte, sem instabilidade não há nada que dor provoque. Sem arte, não há o que se registrar.
Tampouco haverão inventos. E os anos que se passarem só serão uma mera contagem referencial. O tempo pouco importará, se tudo estiver em um mesmo plano.
O tempo voa. Nos cabe guiá-lo. Às vezes, parece quase parar. Em outras, parece quebrar a barreira do som, como um certo flying delta. Quem dita velocidade e destino são os ponteiros do relógio, ao viajante cabe apenas navegar pelas belezas que a vida nos trás e melhor saber aproveitá-las, antes que o partamos para o último vôo.
O ano que se passa, e o novo ano que entra é como número do vôo. Por certo, pouco importa a forma como se recebe o bilhete. Alguns preferem recebê-lo em trajes de pai de santo. Outros preferem fazê-lo reiterando os laços de amizade. Mas, ao fim de tudo, o bilhete estará na carteira. O bilhete que trará mais algumas milhas de vida, quiçás acompanhada de algumas tempestades, quiçás das luzes estelares. Há coisas que somente o tempo reserva aos viajantes que cruzam seus mares e céus. E pouco há o que fazer por parte do viajante. Este apenas navega com toda a força que os braços podem lhe conferir.
-- Michael Althsuler
Parece que foi ontem, mas já há quatro dias em que o ano de 2013 se faz presente nos calendários ao redor do mundo. Ajusta-se o altímetro, novo nível alcançado, mais uma marca do tempo nas cadernetas de cada um. Passa-se mais um teste e elabora-se outro rascunho. Se renovam esperanças, se consolida uma nova era, ao avanço do tempo.
O tempo voa, jamais para. E, consigo, leva o passado, para bem ou para mal, irreparável, imutável. Três vivas à imutabilidade do passado! ainda friso. Esse conjunto de experiências que para trás deixa-se e os efeitos consequentes de cada atividade é a formação de um sujeito.
Como seria se a máquina do tempo desse a chance de se modificar o passado consolidado? Quiçás, diversas vidas haveriam de ser poupadas, aviões não haveriam caído, a revolução francesa não se haveria travado. Mas se não é, a estabilidade, do ser humano, parte; é justamente sua contraparte que invoca a arte. Sem dor não há arte, sem instabilidade não há nada que dor provoque. Sem arte, não há o que se registrar.
Tampouco haverão inventos. E os anos que se passarem só serão uma mera contagem referencial. O tempo pouco importará, se tudo estiver em um mesmo plano.
O tempo voa. Nos cabe guiá-lo. Às vezes, parece quase parar. Em outras, parece quebrar a barreira do som, como um certo flying delta. Quem dita velocidade e destino são os ponteiros do relógio, ao viajante cabe apenas navegar pelas belezas que a vida nos trás e melhor saber aproveitá-las, antes que o partamos para o último vôo.
O ano que se passa, e o novo ano que entra é como número do vôo. Por certo, pouco importa a forma como se recebe o bilhete. Alguns preferem recebê-lo em trajes de pai de santo. Outros preferem fazê-lo reiterando os laços de amizade. Mas, ao fim de tudo, o bilhete estará na carteira. O bilhete que trará mais algumas milhas de vida, quiçás acompanhada de algumas tempestades, quiçás das luzes estelares. Há coisas que somente o tempo reserva aos viajantes que cruzam seus mares e céus. E pouco há o que fazer por parte do viajante. Este apenas navega com toda a força que os braços podem lhe conferir.
Era de mudanças
Pode parecer estranho à muitos, porém explico que não me agrada muito escrever sobre meu próprio indivíduo. Às vezes, isso me soa um tanto quanto intimista e egóico. Afinal, não acredito que um pequeno acontecimento que se suceda a minha pessoa - em regime de, definitivamente, nenhuma exclusivade - há de adicionar muito à experiência mundana.
Entretanto, me agrada escrever. E, caso julgue necessário, hei de narrar um pouco do que me aconteceu, apenas com o intuito de não deixar passar certos momentos em branco ou simplesmente delinear momentos de modo mais literário.
O momento - ou conjunto deles - em questão, foi uma passagem um tanto quanto diferente. É aquela diferença de ambiente, de turma e de situação que dá o velho atestado da passagem do tempo, mas de uma nova forma: os acontecimentos e suas reações a ele. A prióri, a passagem do tempo só era atestada por aquele algarismo que somava a um, a cada zero hora daquele trinta e um de dezembro.
Mas, agora, já devidamente registrado na receita e com a lata de cerveja na mão, a vida passará diante aos olhos com outro brilho. Já deixará de ser um requinte atormentar os bichos, bem como correr ao redor da casa - embora, a grande verdade é que, espero, todos já tenham deixado de fazê-lo há um bom tempo; porém acredito que tenham entendido a metáfora. Por mais que um ou outro passatempo ainda permaneça, a vida, de uma forma geral, muda... Agora a voz sai um pouco mais grossa e a barba cresce como uma grama preta, cercando o queixo.
Algumas dúvidas adolescentes se tornam certezas e agora somos donos de nossos próprios destinos, pois a casa dos pais não há de ser o destino final de ser humano algum. O tempo há de nos fazer voar, para longe ou para perto, mas para um novo destino por nós construído.
Mas o melhor - ou pior - de tudo é que isso é um flash, apenas. Não há muito o que pensar, apenas sabe-se. E nunca encontraria uma melhor cerimônia para ratificar esse sentimento novo como aquele bem comemorado natal, na casa dos "Pinheiro Paes Leme". O cruzamento entre estradas em que minha família encontrara os mais distantes descendentes do caçador de esmeraldas. Pessoas que, por certo, combinaram traços peculiares e brilhos de ambos os lados.
Sabe-se que entre o fotógrafo bahiano e o caçador de esmeraldas há grande distância. Mas isso releva-se, já que todos sob mesmo teto riem, dançam e cantam. Se há problemas internos, não há como dizer, porém, que as rupturas nos separam. Somos um brasão, que, se para uns é motivo de riso, para nós é motivo de champagne - e, quiçás, de mais cerveja.
Diria que são loucos aplicados, mas quem em sua loucura fazem o bem da companhia. Está comprada minha passagem para o clube. Uma dama, inclusive, me encantou muito. E acredito que haja recebido uma recepção perfeita pelos portadores do escudo.
Au revoir, Sapins!
Entretanto, me agrada escrever. E, caso julgue necessário, hei de narrar um pouco do que me aconteceu, apenas com o intuito de não deixar passar certos momentos em branco ou simplesmente delinear momentos de modo mais literário.
O momento - ou conjunto deles - em questão, foi uma passagem um tanto quanto diferente. É aquela diferença de ambiente, de turma e de situação que dá o velho atestado da passagem do tempo, mas de uma nova forma: os acontecimentos e suas reações a ele. A prióri, a passagem do tempo só era atestada por aquele algarismo que somava a um, a cada zero hora daquele trinta e um de dezembro.
Mas, agora, já devidamente registrado na receita e com a lata de cerveja na mão, a vida passará diante aos olhos com outro brilho. Já deixará de ser um requinte atormentar os bichos, bem como correr ao redor da casa - embora, a grande verdade é que, espero, todos já tenham deixado de fazê-lo há um bom tempo; porém acredito que tenham entendido a metáfora. Por mais que um ou outro passatempo ainda permaneça, a vida, de uma forma geral, muda... Agora a voz sai um pouco mais grossa e a barba cresce como uma grama preta, cercando o queixo.
Algumas dúvidas adolescentes se tornam certezas e agora somos donos de nossos próprios destinos, pois a casa dos pais não há de ser o destino final de ser humano algum. O tempo há de nos fazer voar, para longe ou para perto, mas para um novo destino por nós construído.
Mas o melhor - ou pior - de tudo é que isso é um flash, apenas. Não há muito o que pensar, apenas sabe-se. E nunca encontraria uma melhor cerimônia para ratificar esse sentimento novo como aquele bem comemorado natal, na casa dos "Pinheiro Paes Leme". O cruzamento entre estradas em que minha família encontrara os mais distantes descendentes do caçador de esmeraldas. Pessoas que, por certo, combinaram traços peculiares e brilhos de ambos os lados.
Sabe-se que entre o fotógrafo bahiano e o caçador de esmeraldas há grande distância. Mas isso releva-se, já que todos sob mesmo teto riem, dançam e cantam. Se há problemas internos, não há como dizer, porém, que as rupturas nos separam. Somos um brasão, que, se para uns é motivo de riso, para nós é motivo de champagne - e, quiçás, de mais cerveja.
Diria que são loucos aplicados, mas quem em sua loucura fazem o bem da companhia. Está comprada minha passagem para o clube. Uma dama, inclusive, me encantou muito. E acredito que haja recebido uma recepção perfeita pelos portadores do escudo.
Au revoir, Sapins!
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
Além da ágora
Os passos sinistros de sacerdotes rubros ressoam como ritmado e constante rufar de um tambor. No número 43 da praça, diversas pessoas paravam para ouvir parcamente o que se rezava em voz baixa. Não havia sequer um desavisado que não deixasse sua marcha para observar o fenômeno.
Aquela praça não era mais a mesma. Há pouco, fora sacrificada uma cabra, e o sangue que escorria pelo chão constituia no tapete da cerimônia. A cabra, por certo, não fora o único animal morto e pairava no ar um clima de desgosto. A usual retórica que se ouvia frente a assembléia fazia-se ausente, e, na lacuna deixada pela não-reunião dos cidadãos, marchava ali um grotesco ritual popular.
A bem verdade é que todos fingiam saber o que acontecia, ou tinha uma certa certeza. Pouco sabiam o que tudo aquilo significava. Um sentimento lhes tomava a cabeça e cada vez mais marchavam rumo ao Palácio da Justiça, no final da rua. Olhos vermelhos embebidos da justiça das matas prometiam acelerar qualquer julgamento que se baseasse em qualquer folha da papel. Os cidadãos encontravam-se em um almoço. Quando perceberam, estavam cercados.
Um deles, Carvalis, levantou-se e dirigiu retórica frente aos olhos vermelhos. Viu nos olhos de cada um daqueles sacerdotes surgir o fogo. E, em alguns instantes, nada mais sobrava do que labaredas esverdeadas e alguns tijolos que, se muito, se assemelhavam a casas de boneca. Os cidadãos, do alto de suas espadas sem fio e da fraqueza dos homens de armas do palácio, entregaram os pontos, e para uma infinita expedição, para além de qualquer bojador.
A marcha continuou. E a cidade, prédio a prédio, ruía frente a força nova. Aquele ar novo, repleto da nova religião. Pouco sabe-se se grandes templos construiria, mas ainda é cedo para se dizer. Alguns cidadãos, relegados a mendigos matemáticos, ainda cuidavam de contabilizar cada tijolo perdido. E viam seus legados se perderem, frente a um rufar de tambores. O que haveria de tão hipnótico em similar rufar?
Aquela praça não era mais a mesma. Há pouco, fora sacrificada uma cabra, e o sangue que escorria pelo chão constituia no tapete da cerimônia. A cabra, por certo, não fora o único animal morto e pairava no ar um clima de desgosto. A usual retórica que se ouvia frente a assembléia fazia-se ausente, e, na lacuna deixada pela não-reunião dos cidadãos, marchava ali um grotesco ritual popular.
A bem verdade é que todos fingiam saber o que acontecia, ou tinha uma certa certeza. Pouco sabiam o que tudo aquilo significava. Um sentimento lhes tomava a cabeça e cada vez mais marchavam rumo ao Palácio da Justiça, no final da rua. Olhos vermelhos embebidos da justiça das matas prometiam acelerar qualquer julgamento que se baseasse em qualquer folha da papel. Os cidadãos encontravam-se em um almoço. Quando perceberam, estavam cercados.
Um deles, Carvalis, levantou-se e dirigiu retórica frente aos olhos vermelhos. Viu nos olhos de cada um daqueles sacerdotes surgir o fogo. E, em alguns instantes, nada mais sobrava do que labaredas esverdeadas e alguns tijolos que, se muito, se assemelhavam a casas de boneca. Os cidadãos, do alto de suas espadas sem fio e da fraqueza dos homens de armas do palácio, entregaram os pontos, e para uma infinita expedição, para além de qualquer bojador.
A marcha continuou. E a cidade, prédio a prédio, ruía frente a força nova. Aquele ar novo, repleto da nova religião. Pouco sabe-se se grandes templos construiria, mas ainda é cedo para se dizer. Alguns cidadãos, relegados a mendigos matemáticos, ainda cuidavam de contabilizar cada tijolo perdido. E viam seus legados se perderem, frente a um rufar de tambores. O que haveria de tão hipnótico em similar rufar?
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
Musas
Ninfas das árvores da estrada para o Olimpo. Que mais dá para dizer? Muito acertadamente hei de afirmar que praticamente nada, se excluirmos o fato de que a humanidade as faz não quebrarem a barreira da perfeição. Mas como deusas greco-romanas são belas em seus defeitos, lindas em seus traços. E diferentemente destas últimas, existem ao nosso lado, ainda que intangivelmente separadas pelos braços do que é, na maioria das vezes, qualquer arquétipo da velha laia.
Mas se as deusas tem seus defeitos, também os tem os deuses. Ou, ao menos, o que para elas são seus companheiros de Olimpo. A sabedoria divina difere da sabedoria humana. A sabedoria divina se enterra sob diversas atitudes que facilmente identificamos naquelas crianças que brincam no quintal. Em nosso solo, há de ser o homem o máximo possível magnânimo para que as chaves da eternidade consiga, e não há de usar poderes para batalhar seu caminho.
Hão de ser os neurônios a mais poderosa arma humana. Com inteligência e paciência, e sintonizado na frieza da musa, a perseverança há de guiar, fora da mira dos incautos deuses, pela trilha do sentimento forte. Coração que bate pela vitória, clama pela taça. Porque se criamos deuses, somos, na verdade, nós os deuses, e nossas as deusas, que conosco foram criadas, e um para o outro fomos feitos. É amor apenas a peça que faltava para que dentro do Olimpo estivéssemos.
Mas se as deusas tem seus defeitos, também os tem os deuses. Ou, ao menos, o que para elas são seus companheiros de Olimpo. A sabedoria divina difere da sabedoria humana. A sabedoria divina se enterra sob diversas atitudes que facilmente identificamos naquelas crianças que brincam no quintal. Em nosso solo, há de ser o homem o máximo possível magnânimo para que as chaves da eternidade consiga, e não há de usar poderes para batalhar seu caminho.
Hão de ser os neurônios a mais poderosa arma humana. Com inteligência e paciência, e sintonizado na frieza da musa, a perseverança há de guiar, fora da mira dos incautos deuses, pela trilha do sentimento forte. Coração que bate pela vitória, clama pela taça. Porque se criamos deuses, somos, na verdade, nós os deuses, e nossas as deusas, que conosco foram criadas, e um para o outro fomos feitos. É amor apenas a peça que faltava para que dentro do Olimpo estivéssemos.
domingo, 29 de julho de 2012
Bifurcação
Originalmente escrito em 8 de fevereiro
Um certo final se aproxima. Falta muito tempo, talvez, para muitos. Para mim, poucos, dado o fato de que se esvairá sem que se aproveite o máximo. Mas o que fazer se a força do acaso apresenta-se em forma de bifurcação? Duas estradas, mesmo destino. Gostos diferentes... Não sei.
Chove. Uma chuva de pesados sentimentos em cada um dos caminhos. Decisão impiedosa, determinante do futuro. Formas diferentes de se culminar na paulatina separação, deterioração, tempo afora, do que outrora trazia tanta satisfação astral. Não sei se fico, não sei se vou.
Na ácida chuva, fim de estrada reta, paro e penso, olho em diante e lembro de que nem sempre nos dotam de machados para abrir outra estrada. É ficar ali, até que o final se faça sentir, ou viver enquanto o presente lhe faz sorrir.
Mas, se afinal, o futuro de médio prazo há de apagar o presente tão brilhante, não causaria mais dores o final? E assim estaco, entre a dor do arrependimento ou do final. Nada parece adiantar em uma vida tão curta, em tempo tão curto. Todos, de relógio no pulso, as horas passam, o ano passa.
E tudo o que já não durava para sempre, passa a enjoar ou “tirar tempo” das pessoas. Tempo é dinheiro... E todos querem ganhar, sem saber que com dinheiro não se paga o preço da amizade.
Metaforizo porque deve haver quem brinde com uma taça de vinho tais relatos. Há; pois, de reconhecer a dor da indecisão, precedente de qualquer outra.
---
Boa noite, leitores.
Um certo final se aproxima. Falta muito tempo, talvez, para muitos. Para mim, poucos, dado o fato de que se esvairá sem que se aproveite o máximo. Mas o que fazer se a força do acaso apresenta-se em forma de bifurcação? Duas estradas, mesmo destino. Gostos diferentes... Não sei.
Chove. Uma chuva de pesados sentimentos em cada um dos caminhos. Decisão impiedosa, determinante do futuro. Formas diferentes de se culminar na paulatina separação, deterioração, tempo afora, do que outrora trazia tanta satisfação astral. Não sei se fico, não sei se vou.
Na ácida chuva, fim de estrada reta, paro e penso, olho em diante e lembro de que nem sempre nos dotam de machados para abrir outra estrada. É ficar ali, até que o final se faça sentir, ou viver enquanto o presente lhe faz sorrir.
Mas, se afinal, o futuro de médio prazo há de apagar o presente tão brilhante, não causaria mais dores o final? E assim estaco, entre a dor do arrependimento ou do final. Nada parece adiantar em uma vida tão curta, em tempo tão curto. Todos, de relógio no pulso, as horas passam, o ano passa.
E tudo o que já não durava para sempre, passa a enjoar ou “tirar tempo” das pessoas. Tempo é dinheiro... E todos querem ganhar, sem saber que com dinheiro não se paga o preço da amizade.
Metaforizo porque deve haver quem brinde com uma taça de vinho tais relatos. Há; pois, de reconhecer a dor da indecisão, precedente de qualquer outra.
---
Boa noite, leitores.
quarta-feira, 9 de maio de 2012
Nada mais por dizer
Tudo fora feito. As terminologias eram intermináveis, da biologia a história. Um meio globo de massa cinzenta, habitado por gente culta e varrido por frescos ventos. Equilibradas estações, regadas a flores a todo e qualquer momento. Por vezes, uma leve geada, que não chegava a cobrir a superfície do Cabo de Uma Boa Esperança, este existente apenas neste micromundo.
Parecia uma obra prima digna se passar para além do papel. Constituída de repetidas voltas barrocas, alfabetos arcaicos e um brilhante clima nublado, era a terra perfeita. Mas em todo o equilíbrio há algo natural e selvagem, a rota de escape da estabilidade. E por aí trilhou a natureza.
Um terremoto destruía um dos inúmeros templos dedicados à deusa suprema. Em cadeia, a natureza pareceu se ofender e casas foram varridas, prédios engolidos. Como faca atravessando a garganta, do avesso ao extremo tudo se inverteu. Carne a pele se inverteram, em fusões de contrastes de medonhas discrepâncias...
Metade congelou como se estivesse a trezentos graus abaixo de zero, e metade queimou a quinhentos graus célsius, deixando apenas a rigorosidade da areia e das cinzas. Uma lava de sentimentos escorria pelas canaletas do relevo em destruição.
Somente uns poucos rios contiveram, ainda que a custo, a pasta do inferno, sendo que esta última despeja em tais rios seus ingratos resíduos. Em meio a desordem, apenas uma garoa agia em emergência, mas sua ineficiência apenas alimentava o braseiro que queimará até o fim dos tempos.
E de tudo sobra apenas uma massa amorfa, e uns poucos sobreviventes darwinianos. E as flores que antes brotavam em tal solo jamais serão as mesmas. Cada ferida há de ser uma futura falha geológica em nossa mente.
Parecia uma obra prima digna se passar para além do papel. Constituída de repetidas voltas barrocas, alfabetos arcaicos e um brilhante clima nublado, era a terra perfeita. Mas em todo o equilíbrio há algo natural e selvagem, a rota de escape da estabilidade. E por aí trilhou a natureza.
Um terremoto destruía um dos inúmeros templos dedicados à deusa suprema. Em cadeia, a natureza pareceu se ofender e casas foram varridas, prédios engolidos. Como faca atravessando a garganta, do avesso ao extremo tudo se inverteu. Carne a pele se inverteram, em fusões de contrastes de medonhas discrepâncias...
Metade congelou como se estivesse a trezentos graus abaixo de zero, e metade queimou a quinhentos graus célsius, deixando apenas a rigorosidade da areia e das cinzas. Uma lava de sentimentos escorria pelas canaletas do relevo em destruição.
Somente uns poucos rios contiveram, ainda que a custo, a pasta do inferno, sendo que esta última despeja em tais rios seus ingratos resíduos. Em meio a desordem, apenas uma garoa agia em emergência, mas sua ineficiência apenas alimentava o braseiro que queimará até o fim dos tempos.
E de tudo sobra apenas uma massa amorfa, e uns poucos sobreviventes darwinianos. E as flores que antes brotavam em tal solo jamais serão as mesmas. Cada ferida há de ser uma futura falha geológica em nossa mente.
sábado, 5 de maio de 2012
Uma extraordinária despedida
Esta poderia muito bem ser aquelas histórias de boteco para a qual nem Fortuna poria sua trança a leilão. Uma arte do acaso. Acaso que não parecia ser indicado pela atmosfera nublada daquele dia trinta de abril. O oposto de fazia sentir. Carregadas notas de piano enchiam cada viga da rodoviária.
Para entender o porque de tal clima, é preciso entender primeiramente que depositamos, cada um, três imprestáveis reais no caixa do ônibus. Uma atmosfera carregada nos esperava no bairro do Limão e fez com que tivéssemos certeza de que queimar essa cifra teria tido melhor utilidade.
Meu camarada tinha seu estômago nas costas e um pálido plano de raiva no rosto. Atravessei a tempestade como se fosse névoa, mas não sei se poderia dizer o mesmo dele. Deixava o Butantã com um arrependimento duas vezes maior que quando embarcamos no primeiro ônibus da jornada.
Após uma breve janta em escasso tempo, regada a notas tocadas por um pianista anônimo, assistido por uma ou duas almas, que por vezes se alternavam.
Lia-se Erechim. Era um ônibus novo e reluzente, revestido do mais uniforme insulfilm em seus vidros. Deixei-o a mercê de Vênus. Avistava na fila várias pessoas e tinha por certo de que de nenhuma eu me lembraria depois.
Sentado no banco de um carro Budd do metrô, iniciei um precário correio eletrônico entre este referido camarada e uma amiga de imensurável valor, de forma a repelir um pouco aquele preguiçoso final de tarde.
Dentre uma mensagem e outra, o camarada, André, para melhor nos referirmos, de alguma forma tentava invocar uma coragem para se aproximar de uma das passageiras, a qual havia visto na fila, mas que a essa altura do campeonato já parecia não ser mais uma simples passageira de nossa passageira vida.
De um diálogo simples, de pouco arrojo e extraordinária coragem, fizeram-se os dois um, na missão de preencher o vazio de uma viagem, que de poste a poste, madrugada adentro prometia ser a mais melancólica das relíquias da vida, um cadeado de latão trancafiando um baú de ouro.
Obra de divindade ou acaso do momento, sabe-se mal a explicação. Aconteceu e assim foi. Mas por aí não fica. A tempestade não acabaria, e às cinco horas da madrugada, tudo parecia não existir mais e o tempo ameaçava tornar passageiro qualquer sentimento empregado.
Mas o tempo não fez-se de ingrato, e frente a dois corações desconexos, recriou um laço que, não fosse a velocidade dos elétrons viajantes, estaria agora para sempre firme, porém encoberto.
E, ao final de tudo, delineou-se assim, esta história. Por certo, dirão que é mera ficção. Mas reitero que é ficção apenas fora de nossa dimensão espacial, observei cada passo dessa trajetória e deixo minha assinatura sobre cada fato relatado, para que todos tenham certeza de que praticamente nada é impossível, em um mundo tão envolto por elétrons e encoberto pelas nuvens do acaso.
Para entender o porque de tal clima, é preciso entender primeiramente que depositamos, cada um, três imprestáveis reais no caixa do ônibus. Uma atmosfera carregada nos esperava no bairro do Limão e fez com que tivéssemos certeza de que queimar essa cifra teria tido melhor utilidade.
Meu camarada tinha seu estômago nas costas e um pálido plano de raiva no rosto. Atravessei a tempestade como se fosse névoa, mas não sei se poderia dizer o mesmo dele. Deixava o Butantã com um arrependimento duas vezes maior que quando embarcamos no primeiro ônibus da jornada.
Após uma breve janta em escasso tempo, regada a notas tocadas por um pianista anônimo, assistido por uma ou duas almas, que por vezes se alternavam.
Lia-se Erechim. Era um ônibus novo e reluzente, revestido do mais uniforme insulfilm em seus vidros. Deixei-o a mercê de Vênus. Avistava na fila várias pessoas e tinha por certo de que de nenhuma eu me lembraria depois.
Sentado no banco de um carro Budd do metrô, iniciei um precário correio eletrônico entre este referido camarada e uma amiga de imensurável valor, de forma a repelir um pouco aquele preguiçoso final de tarde.
Dentre uma mensagem e outra, o camarada, André, para melhor nos referirmos, de alguma forma tentava invocar uma coragem para se aproximar de uma das passageiras, a qual havia visto na fila, mas que a essa altura do campeonato já parecia não ser mais uma simples passageira de nossa passageira vida.
De um diálogo simples, de pouco arrojo e extraordinária coragem, fizeram-se os dois um, na missão de preencher o vazio de uma viagem, que de poste a poste, madrugada adentro prometia ser a mais melancólica das relíquias da vida, um cadeado de latão trancafiando um baú de ouro.
Obra de divindade ou acaso do momento, sabe-se mal a explicação. Aconteceu e assim foi. Mas por aí não fica. A tempestade não acabaria, e às cinco horas da madrugada, tudo parecia não existir mais e o tempo ameaçava tornar passageiro qualquer sentimento empregado.
Mas o tempo não fez-se de ingrato, e frente a dois corações desconexos, recriou um laço que, não fosse a velocidade dos elétrons viajantes, estaria agora para sempre firme, porém encoberto.
E, ao final de tudo, delineou-se assim, esta história. Por certo, dirão que é mera ficção. Mas reitero que é ficção apenas fora de nossa dimensão espacial, observei cada passo dessa trajetória e deixo minha assinatura sobre cada fato relatado, para que todos tenham certeza de que praticamente nada é impossível, em um mundo tão envolto por elétrons e encoberto pelas nuvens do acaso.
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Forte chuva
É um final de verão. Tempo fechado, chuva forte e constante de um dia cujo o sol haveria de se por mais cedo. Não pelo horizonte, mas por intermédio de belas, mas perigosas, nuvens. O arrastado voar das nuvens cumulus nimbus dava o veredicto de um penoso dia.
Mas era só um reflexo. Já tinha acontecido. Por motivos simples, e por incompreensão mútua, uma deusa tornaria o dia um penúria... E quem sabe tornasse tudo penúria, até o final desses tempos? Não inútil obra do acaso, o aspecto bucólico da chuva se contrapõe com o aspecto calmante.
Como nós, os céus também choram e, talvez, sejam os únicos que conosco chorem, nesses tempos. Mas há de vir, com o seco nublado do inverno, a calma e a paciência que nos falta no pegajoso e repugnante verão tropical.
Mas a ausência das lágrimas não significa resolução e a batalha é, de qualquer forma difícil. Não basta seca-las. E elas não hão de parar naturalmente, se é essa vida tão cheia de permeios e esse mundo tão diferente de nossos sonhos.
Vivemos em mundos diferentes, digo à Deusa. Nosso universos por algum acaso se colidiram e tudo o que veio com ele ameaça ser o maior dos deleites, mas no caminho, promete os mais terríveis espinhos.
Por vezes, tudo se encaixa, por outras, nada faz sentido. Pela camada subjetiva, se esvaem as mais gritantes nuanças. E tudo porque nossos universos são de materiais diferentes, de riquezas diferentes.
E a Deusa está sob uma pilha do mais rico e intangível material. Cada vez mais distante na mente tudo está. Um arauto não há de anunciar o final, tudo parece derreter da pior forma possível, como se fosse sonho. Mas que sonho mais real, que estranho!
Provavelmente tudo foi um sonho e talvez seja a hora de acordar para um novo amanhecer. Sem chuva, sem sol, sem paredes, sem telhados e sem sentimentos. Um outro universo, outra dimensão, outra vida.
Mas antes, o declínio. Matando-nos lentamente, transformando cada sonho em decepção e cada espectativa a respeito da vida, mero exagero, mera frescura. Pois nada é para sempre, e há de ser esse o eterno ciclo.
E depois de tanto pensar, a chuva pára. E o último raio de sol do dia ainda consegue dar-nos uma esperança de jamais acordarmos. Quem dera....
Mas era só um reflexo. Já tinha acontecido. Por motivos simples, e por incompreensão mútua, uma deusa tornaria o dia um penúria... E quem sabe tornasse tudo penúria, até o final desses tempos? Não inútil obra do acaso, o aspecto bucólico da chuva se contrapõe com o aspecto calmante.
Como nós, os céus também choram e, talvez, sejam os únicos que conosco chorem, nesses tempos. Mas há de vir, com o seco nublado do inverno, a calma e a paciência que nos falta no pegajoso e repugnante verão tropical.
Mas a ausência das lágrimas não significa resolução e a batalha é, de qualquer forma difícil. Não basta seca-las. E elas não hão de parar naturalmente, se é essa vida tão cheia de permeios e esse mundo tão diferente de nossos sonhos.
Vivemos em mundos diferentes, digo à Deusa. Nosso universos por algum acaso se colidiram e tudo o que veio com ele ameaça ser o maior dos deleites, mas no caminho, promete os mais terríveis espinhos.
Por vezes, tudo se encaixa, por outras, nada faz sentido. Pela camada subjetiva, se esvaem as mais gritantes nuanças. E tudo porque nossos universos são de materiais diferentes, de riquezas diferentes.
E a Deusa está sob uma pilha do mais rico e intangível material. Cada vez mais distante na mente tudo está. Um arauto não há de anunciar o final, tudo parece derreter da pior forma possível, como se fosse sonho. Mas que sonho mais real, que estranho!
Provavelmente tudo foi um sonho e talvez seja a hora de acordar para um novo amanhecer. Sem chuva, sem sol, sem paredes, sem telhados e sem sentimentos. Um outro universo, outra dimensão, outra vida.
Mas antes, o declínio. Matando-nos lentamente, transformando cada sonho em decepção e cada espectativa a respeito da vida, mero exagero, mera frescura. Pois nada é para sempre, e há de ser esse o eterno ciclo.
E depois de tanto pensar, a chuva pára. E o último raio de sol do dia ainda consegue dar-nos uma esperança de jamais acordarmos. Quem dera....
domingo, 8 de abril de 2012
Relicário
Aos sinais particulares, in memoriam.
Façamos de nossas almas relicários, pois não tarda o mal sob peles de bem. E nada nesta terra será tão impiedoso quanto as forças do bem. Que esteja em nosso relicário, todas as tradições que nos estragam, pois hão de assegurar que vivamos para sempre. Comprimidas e sem conflitos, serão planas as relações humanas.
Guardemos em nossos relicários, os livros, os mais belos projetos e as catedrais góticas, pois há se impor a perfeição incômoda das quatro paredes. Que seja o relicário nossa capsula do tempo, nossos documentos.
Serão cruéis os pequenos descuidos e questão de saúde pública a fumaça do cachimbo. Escrevam suas memórias, encadernem-nas. Ter opinião é ter visão. E ter visão não é ser feliz.
Será o soma a droga sob a qual dormem nossas mágoas. Sob a áurea da bondade global, reside a obrigação do bem. Todos tem direito de serem felizes e obrigação de fazerem felizes. Se não, há o cidadão de reservar a lápide! Enterre-nos; pois, com nossos relicários.
Optamos por morrer com a felicidade entorpecente e cega do que polirmos as mais perigosas idéias de nossos relicários. Mas há muito eles não existem. Porque as relíquias reais não são nada, sequer idéia metafísica, que muito além do túmulo irá. Mas o que será relíquia dentre tanto carbono e ferro?
A cada dia que passa, se ausenta a humanidade. Peças quadradas adentram o tabuleiro. A estabilidade se aproxima, e o debate será apenas uma atividade de fachada. Os cafés serão energéticos, se ainda permitidos. Todos sabem o que todos querem e a liberdade de despontar há de ser severo crime.
Afinal, “ser você mesmo” será mais um estereótipo vazio e não haverá termo de diálogo que indique a saída, Por isso, meus caros, se vocês ainda tem seus relicários, abracem-no. Pode significar mágoa, desgraça e tempestade. Vale a pena? Tudo vale a pena, se a alma não é pequena! Que viva o magnífico gênero humano!
Façamos de nossas almas relicários, pois não tarda o mal sob peles de bem. E nada nesta terra será tão impiedoso quanto as forças do bem. Que esteja em nosso relicário, todas as tradições que nos estragam, pois hão de assegurar que vivamos para sempre. Comprimidas e sem conflitos, serão planas as relações humanas.
Guardemos em nossos relicários, os livros, os mais belos projetos e as catedrais góticas, pois há se impor a perfeição incômoda das quatro paredes. Que seja o relicário nossa capsula do tempo, nossos documentos.
Serão cruéis os pequenos descuidos e questão de saúde pública a fumaça do cachimbo. Escrevam suas memórias, encadernem-nas. Ter opinião é ter visão. E ter visão não é ser feliz.
Será o soma a droga sob a qual dormem nossas mágoas. Sob a áurea da bondade global, reside a obrigação do bem. Todos tem direito de serem felizes e obrigação de fazerem felizes. Se não, há o cidadão de reservar a lápide! Enterre-nos; pois, com nossos relicários.
Optamos por morrer com a felicidade entorpecente e cega do que polirmos as mais perigosas idéias de nossos relicários. Mas há muito eles não existem. Porque as relíquias reais não são nada, sequer idéia metafísica, que muito além do túmulo irá. Mas o que será relíquia dentre tanto carbono e ferro?
A cada dia que passa, se ausenta a humanidade. Peças quadradas adentram o tabuleiro. A estabilidade se aproxima, e o debate será apenas uma atividade de fachada. Os cafés serão energéticos, se ainda permitidos. Todos sabem o que todos querem e a liberdade de despontar há de ser severo crime.
Afinal, “ser você mesmo” será mais um estereótipo vazio e não haverá termo de diálogo que indique a saída, Por isso, meus caros, se vocês ainda tem seus relicários, abracem-no. Pode significar mágoa, desgraça e tempestade. Vale a pena? Tudo vale a pena, se a alma não é pequena! Que viva o magnífico gênero humano!
sexta-feira, 6 de abril de 2012
Noite
Originalmente escrito em primeiro de março
O cair da noite vem como suspiro, junto com o suspiro. Há um futuro incerto a frente e uma tortuosa estrada permeada por flores, mas protegida por serpentes de nossas mentes. O desespero das carícias e a intermitência dos sentimentos frente ao incerto traçado do futuro, e às bravias trincheiras que seguem nessa inexplicável estrada do espaço-tempo.
As amizades vem, se vão, tal como essa noite, que me trouxe este cenário. Ela irá embora. Independente da linearidade. O tempo e o espaço mudam suas conexões. Fazem com que cada segundo tenha sua influência no futuro, mas não imediatamente. E, em um piscar de olhos, pulo da física a metafísica.
Sob a abstração do que nos é invisível, fora da linearidade da estrada temporal, mal conseguimos imaginar o que não se cronometra. Sempre é um ciclo, uma roda. Por que a memória consegue fugir a regra? Ah, curiosa a memória. Jamais a acharam. A memória está conectada a essa noite, a esse estado.
Por vezes, penso que captamos e transformamos em sinais elétricos o que nos é, de certa forma, transcendente. E nesse plano, as ligações se cruzam, os destinos eventualmente se confundem e... Bem, aqui estamos.
Cenário vazio. Mundo sem ninguém. Caminho na deserta plataforma de concreto. Sul da cidade, Grajaú. Mapeio sem me preocupar com o tempo, cada lampejo de minha memória, sobre este mesmo cenário. Os abraços, as partidas... Tudo tão nítido ao se colocar na linearidade, mas tão vago em nossa mente.
Os destinos se confundiram. E não estou mais sozinho. Mas ao mesmo tempo estou. Sob a angústia das instituições, e do meu respeito para qual as tradições, caio na cama, corpo reto, sem chorar. Cada lágrima faço secar. Mas não há água com sal que apague o fogo, cruel e sentimentalista. Inconcebível, mas existente.
A amizade cresce. Como qualquer coisa exposta a linearidade temporal. Não se encerra nessa noite... Vem a tona a essa noite. Noite pensativa, de um dia pensativo, mas que no final fora feliz.
O cair da noite vem como suspiro, junto com o suspiro. Há um futuro incerto a frente e uma tortuosa estrada permeada por flores, mas protegida por serpentes de nossas mentes. O desespero das carícias e a intermitência dos sentimentos frente ao incerto traçado do futuro, e às bravias trincheiras que seguem nessa inexplicável estrada do espaço-tempo.
As amizades vem, se vão, tal como essa noite, que me trouxe este cenário. Ela irá embora. Independente da linearidade. O tempo e o espaço mudam suas conexões. Fazem com que cada segundo tenha sua influência no futuro, mas não imediatamente. E, em um piscar de olhos, pulo da física a metafísica.
Sob a abstração do que nos é invisível, fora da linearidade da estrada temporal, mal conseguimos imaginar o que não se cronometra. Sempre é um ciclo, uma roda. Por que a memória consegue fugir a regra? Ah, curiosa a memória. Jamais a acharam. A memória está conectada a essa noite, a esse estado.
Por vezes, penso que captamos e transformamos em sinais elétricos o que nos é, de certa forma, transcendente. E nesse plano, as ligações se cruzam, os destinos eventualmente se confundem e... Bem, aqui estamos.
Cenário vazio. Mundo sem ninguém. Caminho na deserta plataforma de concreto. Sul da cidade, Grajaú. Mapeio sem me preocupar com o tempo, cada lampejo de minha memória, sobre este mesmo cenário. Os abraços, as partidas... Tudo tão nítido ao se colocar na linearidade, mas tão vago em nossa mente.
Os destinos se confundiram. E não estou mais sozinho. Mas ao mesmo tempo estou. Sob a angústia das instituições, e do meu respeito para qual as tradições, caio na cama, corpo reto, sem chorar. Cada lágrima faço secar. Mas não há água com sal que apague o fogo, cruel e sentimentalista. Inconcebível, mas existente.
A amizade cresce. Como qualquer coisa exposta a linearidade temporal. Não se encerra nessa noite... Vem a tona a essa noite. Noite pensativa, de um dia pensativo, mas que no final fora feliz.
sexta-feira, 23 de março de 2012
Marco das sete
A cidade não morreu, mas começa a se desmontar, perante aos olhos do sol dormente. E vemos, luzes por luzes, vermelhas por um lado, amarelas de outro, em avanço rápido para um trânsito de formigas. Seis milhões de conjuntos de luzes, como vagalumes estáticos e sem asas, varrem pedra a pedra.

Mas não precisa desmontar-se, a cidade... Ao alvorecer, tudo se repete, de sete às sete. Porque a cidade não para, apenas acerta seus ponteiros, para logo mais explodir em multidão. Pesadas portas de aço se erguem frente aos primeiros raios solares, para mais tarde caírem sobre o brilho inexistente da lua.
Fecha o tempo, cai a chuva. Imersos estamos, sob a urbanidade exacerbada, sem limites tracejados, que agora nos confere a poça sob nossos pés. Viajamos no limite das leis da física, perdemos nossas referências. O conforto grita contra os valores e nunca se sabe o quanto a mala realmente atrapalha. Seremos nós as malas, uns dos outros?
Nas latas de sardinha não há alças. Apenas canos, canos pelo qual entramos no resumo de cada dia, carpe diem! E desceremos ciclo abaixo em um espiral de objeções às nossas licenças literárias. E ainda teimam em nos levar por entre máquinas, arrastando-nos por nossos braços. Ora! Não me peguem pelo braço, eu já lhes disse que não quero que me peguem pelo braço!
Tudo é força, máquina, energia. Tudo brilha. Trenzinhos de pilha coreanos, caixas de som portáteis e seus DJs voluntários. E, como paralisados pelo sono, de olhos abertos, presenciamos os espíritos dissecarem as tripas de neurônios conhecidos, extraindo-lhes o potássio e destruindo suas energias. Sinapse de tétrico fim, como os nossos tétricos tempos.

Mas não precisa desmontar-se, a cidade... Ao alvorecer, tudo se repete, de sete às sete. Porque a cidade não para, apenas acerta seus ponteiros, para logo mais explodir em multidão. Pesadas portas de aço se erguem frente aos primeiros raios solares, para mais tarde caírem sobre o brilho inexistente da lua.
Fecha o tempo, cai a chuva. Imersos estamos, sob a urbanidade exacerbada, sem limites tracejados, que agora nos confere a poça sob nossos pés. Viajamos no limite das leis da física, perdemos nossas referências. O conforto grita contra os valores e nunca se sabe o quanto a mala realmente atrapalha. Seremos nós as malas, uns dos outros?
Nas latas de sardinha não há alças. Apenas canos, canos pelo qual entramos no resumo de cada dia, carpe diem! E desceremos ciclo abaixo em um espiral de objeções às nossas licenças literárias. E ainda teimam em nos levar por entre máquinas, arrastando-nos por nossos braços. Ora! Não me peguem pelo braço, eu já lhes disse que não quero que me peguem pelo braço!
Tudo é força, máquina, energia. Tudo brilha. Trenzinhos de pilha coreanos, caixas de som portáteis e seus DJs voluntários. E, como paralisados pelo sono, de olhos abertos, presenciamos os espíritos dissecarem as tripas de neurônios conhecidos, extraindo-lhes o potássio e destruindo suas energias. Sinapse de tétrico fim, como os nossos tétricos tempos.
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