quinta-feira, 7 de maio de 2015

Estética e Liberdade

Uma breve investigação acerca do problema entre estética e liberdade nos dias de hoje, considerando-se como cenário o espaço público.

Um grande problema parece surgir a mim, como membro de uma sociedade nos século XXI: como conciliar valores estéticos com uma liberdade nos moldes defendidos por meus contemporâneos?

Em primeiro lugar, é necessário ressaltar a importância e origem dos valores estéticos. Nesses tempos, tal conjunto recebe o nome de “padrão de beleza” -- limitar-me-ei aqui a esse sentido -- e é tido como algo a ser combatido. Entretanto, o esforço é vão, uma vez que os seres de determinada época buscam o que lhes parece mais atraente com base na experiência. O simples combate ao “padrão de beleza” significaria negar de modo hipócrita a rejeição ou aprovação de um modo que inegavelmente existe no ser humano.

Dito isso, em segundo lugar ainda que não seja plausível almejar um combate total dos padrões de beleza, seria então mais complicado ainda supor que, além de ser possível tal combate, é possível “desconstruir” -- para usar o termo corrente -- totalmente um padrão vigente para algo totalmente diferente em um curto espaço de tempo.

Por fim, a estética continua dando as cartas, mesmo que turvada entre as chapas de vidro fume da modernidade líquida. Ela pode estar um pouco distorcida, fragmentada, no entanto não deixou de existir no imaginário humano porque cumpre uma importante função: reconhecer o belo, reconhecer seu papel no belo.

Sendo assim, a liberdade nos moldes atuais colabora arduamente para a fragmentação da estética (divide et impera). Em suas linhas, interpreta-se que todo o ser humano pode criar e vestir-se da forma como quiser. Estranhamente, ao passo de que a liberdade individual parece aumentar, a liberdade de expressão sofre algumas economias, em nome da “não-agressão” e da reparação étnica.

Ou seja, há limites ideários para a liberdade, porém não estéticos. Contudo, se esquece de que o ser humano continuará julgando esteticamente, mesmo em seu mais alto grau de razão. O resultado será uma porção de indivíduos confusos, desunidos e fragmentados porque dependem de identidades estéticas de grupo. Tribos como se rotula hoje, em certo nível; ou classes, em um nível superior.

A própria existência das tribos, porém, prova a natureza indivisível do átomo representado pela estética: condizentemente com a cultura e finécia de determinada unidade cultural será o gosto e a procura pelo simples e belo. A procura continuará existindo, enfim.

Chega-se então ao primeiro conflito com entre liberdade tal como é hoje e estética: se uma civilização opta convergentemente para o terno e a gravata como roupagem elegante, os promotores de tal liberdade defenderiam haver nisso uma negação da liberdade de expressão e individual, ou, em outros discursos, um certo “preconceito”.

Os limites da liberdade são, e sempre foram, algo muito difícil de se demarcar. Porém, a nível empírico, em uma sociedade tradicionalmente ocidental existem costumes que nos parecem detestáveis, porém totalmente aceitos se ocorridos em comum acordo entre indivíduos fora de locais públicos. Novamente: negar isso sob o pretexto de haver um “preconceito arraigado e institucional” implicaria negar, também, a natureza humana – o ser humano julga, sempre julgará.

Desse modo, a tal liberdade parece favorecer mais as minorias que lutam pelo reconhecimento: proíbem que se tenha pré-conceitos delas e fazem permitir-se que andem da forma como entendem, dizendo da maioria o que na mente lhes vier. Mas, como quaisquer humanos, também julgam e continuarão julgando, enquanto aos outros indivíduos tentam negar esse direito.

A liberdade nos moldes atuais é, então, um simulacro do original sentido de seu vocábulo, já que pode existir de modo negativo. Além disso, se os promotores de tal liberdade ignoram o julgo do indivíduo, por tabela também ignoram que o julgo apurado de um indivíduo culto possa trazer-nos para mais próximo do belo, para uma noção mais refinada, mais próxima da perfeição – agem como inimigos do esclarecimento e da razão.

Originalmente, a liberdade não deveria constituir nenhum obstáculo, pois, sendo uma concessão de uma sociedade (i.e. commonwealth, como Locke coloca), implica compromissos entre o indivíduo e a maioria, dentre os quais um deles é respeitar, em ambiente público, o limite do que pela maioria é considerado razoável. Respeitado o que é considerado harmonioso pela sociedade, a estética pode fluir livremente.

As variações aparecerão com o tempo, a depender do refinamento intelectual e disposição de determinada sociedade em revisar seus procedimentos. Às minorias cabe acatar tal fato como princípio para o melhor funcionamento de uma sociedade conjunta e colaborar de modo intelectual para as mudanças de padrão estético, sendo que estas tendem a maior aceitação se feitas de modo gradual.

Enfim, a liberdade em si não agride a estética e a estética também não a agride. Conclui-se que o conflito se baseia na confusão criada pelas negações e “desconstruções” provocadas pela liberdade teoricamente irrestrita que hoje se exerce. Uma liberdade que funciona melhor a nível de grupos do que de sociedade apenas poderia dispensar à maioria a confusão e a perda de identidade cultural. O estudo da estética e da arte só tem a perder com isso.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Consolação acima

É verdade, o dia estava muito quente. Havia um tapete de nuvens, pouco vento e um bafo incrível para os vinte e cinco graus da capital. Queimava como uns trinta. A dinâmica do ônibus cheio, aliada à boa vontade nula de São Pedro inclusive me fizeram aposentar os planos de usar meu largo paletó de veludo, nesse dia.

De pólo branca, numa tentativa de refletir os tensos raios solares e um velho jeans datado dos tempos de cursinho, fui ter com a galera do curso de Jogos Digitais. A física dos gestos é algo bastante interessante, nesse povo: muda as máscaras de teatro conforme o momento e é capaz de emplacar “Risos” por uma batata, ao passo que bóia em algumas tiradas de W. Allen.

Mas não fiz por menos, e fiz o máximo possível do humor batata, ainda que impossível sob a perspectiva do mal humorado. Tinha missão, naquelas terras. Ou missões. Uma delas era almoçar pastel, numa quarta, com futuros empreendedores de games, enquanto em minha unidade reinava o descanso de não me ver graças a uma janela de horário.

Desde que praticamente me livrei dos grilhões impostos pelo amor a Bianca, a jornada que venho trilhando baseia-se em tatear um pouco do que pode me oferecer esse mundo, seja um hot dog osasquense ou uma aula a respeito do fundo azul na indústria cinematográfica, procurando pêlo em ovo até em Indiana Jones.

O que não coube nos 35 mm me restou falar aqui. Eis as outras missões: viver a cidade, enfim. E em bando subo a consolação em animado papo; ofereço a chama de meu velho Zippo herdado a uma moça que conosco anda, e cujo cabelo ganhava uma leve vivacidade graças as brisas de ar quente desse dia.

Andar só no centro pede habilidades, nesses dias de desconstrução – as pessoas desconstruíram até a forma de andar na rua! Se só já se pede a esperteza de vazar os espaços vazios antes de encontrar de peito com o gordo vendedor de amendoim, junto a amigos e, também, uma moça, exigia-se um pouco mais da capacidade multitarefa dos miolos.

Jogo o cachimbo para um canto da boca, as palavras para o outro e aí o jeito é ver se dá equilíbrio. Uma senhora me colide com os ombros, peço desculpas e escuto o vazio, quase senti uma guerra civil. Lá na frente do grupo, disse a uns amigos, sobre as batatas e não batatas FFLCHianas e não sei até hoje sobre o quanto estão certos sobre o aroma da erva.

E segue-se o tétrico andar, rumo o santo pastel. “Quero dois carnes e uma coxinha com catupiry, com tempero de centro, monóxido a gosto”. Um compra a soda, outro um espaço e alguns confusões com cruzeiros depois, todos se riem das fortunas e desfortunas dos brilhantes tempos de faculdade.

Peço à mocinha dos cabelos coloridos um pouco da teoria que repousa sobre seus dedos de programadora, tentando trocar figuras sobre a lógica ou ilógica. Não sei se supero aos tratados e artigos científicos, é notável que vivo em uma realidade em que esses não poderiam operar. E a metafísica da urbe me dá imenso trabalho com seus mistérios encerrados no olhar de cada amigo ou transeunte desconhecido.

Spotteds, quadros anônimos, poemas incógnitos... Há muito por aí, dentre os prédios, ruas e árvores. Cada defeito do pavimento é um pedaço da história, espaço aonde juntam-se as cinzas do cigarro e do cachimbo. E onde se encerram as ondas sonoras da conversa.

Fora uma quarta-feira quente, com ventos tímidos, mas uma luz bonita, e os raios de sol graves anunciam o outono e inverno vindouros em que as conversas sobre os livros e softwares começam para viverem animadas sob o céu limpo, sol nostálgico e um vento frio das tardes de maio e junho.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Spotted perdido I

Originalmente submetido à página "Spotted FFLCH - O retorno" em 28 de março, esse texto foi rejeitado pela moderação da página, que por algum motivo decidiu não publicá-lo.
O texto acabou sendo aceito, ontem. Porém com toda a formatação perdida.

“Dedico a esta, cujo nome é estrela,
A injusta poesia mancada,
Num ritmo de prosa trucada,
Chorada num pensamento triste

De mim não falo, pois sou mera mancha
Baixo aos ornamentos sob os quais existo
Mas és tu a turvar Kant, Bataille e Arendt
Pois eres natureza, filosofia indecifrável

Em que reside uma mulher forte e resoluta
Junto a um charme de invejar a Hepburn
Para os ares com as antropologias de bar
Hoje, e por tempos, eres tu a tirar-me o ar

Agora estou na lógica, amanhã ali na estética
Venço hoje a jaula, para amanhã vê-la na foto
Quero tua lógica e a estética de teu duro olhar
Que peço? Nada mais, esgotam-se as ideias

Me dizem Zizek, respondem Platão, digo Stella
E nas estrelas não há culpa e sim toda a meta
Da metafísica a metavivência de teus braços”

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Oriente-se!




Era no tempo da copa. Os gringos chegam, e é um tremendo vai-e-vem de táxis e carros alugados. A cidade se extende mar de morros adentro, são doze milhões de habitantes em seus seis milhões de veículos. Entretanto, seis milhões sem carro não é baixo número: imagine todos esses seis milhões pendurados nos "seca-subacos" dos ônibus da cidade. Três milhões deles, sabe-se usam os mirrados quilômetros de metrô que a cidade tem, e o resultado disso não se deixa mentir pelas fotos publicadas nos jornais, vez por outra, na eventualidade de uma falha.

Mas para onde vão? De onde vem? Do que vivem? Ora, alguns fingem que estudam, outros fingem que trabalham, outros, mais honestos, se deixam confessar que vivem pelo smartphone. Porém, passear com o smartphone não é tarefa simples, em uma cidade tão grande. Quer ir à Rua Sete de Abril para obter o assalto perfeito? Ali passa o Estação da Luz. Quer ir à Santa Ifigênia? Ali passa o Praça Ramos. MAS ESPERE? O que é esse tal de "Praça Ramos", um pobre incauto poderia perguntar, com seu tablet debaixo do braço, pronto para uma leitura de um livro do Paulo Coelho. Você, paulistano da gema, responde maquinalmente: 8707 ¹.

E o que é esse diabo de 8707 ¹? O paulistano apressado aponta para um ônibus laranja e segue seu caminho antes mesmo de dizer "Boa tarde". Parece fácil, mas as linhas de ônibus não vão de um ponto a outro, apenas. Passam por uns, perpassam outros. É um ziza-zaque de um zique-zira danado. E quem explica? Freud sentiria dificuldades, ao desembarcar no Terminal Santo Amaro. Por que tantos números, placas, códigos?

O sistema de ônibus de São Paulo é uma equação de segundo grau que nem Pierluigi Piazzi resolve. Aliás, ao que sabe, nem a equipe da gestora de transportes poderia resolver, mesmo em equipe. O metrô é simples, cada estação é uma fanfarra de luz e gente bem sinalizada. Mas e um ponto? Um ponto é um toco de madeira espetado na calçada. Às vezes é uma suntuosa estrutura de metal. Mas e a lista dos serviços? Ninguém sabe, ninguém viu. O Zé Tião da Padaria vai saber te informar melhor, meu.

Para começo de conversa, temos um sistema multicolorido no qual cada área tem uma cor, mas no qual, também, pode-se ver um ônibus da puta que o pariu extrema atravessando NUMA BOA outra área. Esqueça a cor, certo? Vamos aos números. Aos milhões de passageiros? Não, meu caro. Há um código de quatro caracteres, exibido pelos ônibus. É o 8707 do qual você não entendeu nada. Desses quatro caracteres, temos o primeiro, que não quer dizer absolutamente nada, o segundo, que não diz lhufas, o terceiro, que não faz sentido e, por final, o quarto, que às vezes é uma letra, às vezes um número. E agora, José?

Para Platão, a idéia de código é outra. Peguemos 828P, por exemplo. O oito é a área, o dois é alguma distância aleatória que o burocrata pegou e o oito é, em tese, a área final. "P" é um ponto importante no qual ele passa. Na prática, isso funciona: Lapa (área 8) -> Barra Funda (área 8), via algum lugar que comece com P (ou tenha P como letra marcante). Às vezes também pode ser a inicial da paixão do burocrata que criou a linha ou do filho mais novo dele. Se temos quatro dígitos numéricos, a linha é daquelas que dão volta dentro do bairro ou vão parar em algum lugar do centrão, nesse caso, o primeiro dígito é a área de partida, o segundo é geralmente "zero" e os outros dois definem onde o busão para, se é ao lado do mendigo conhecido ou se é do lado do prédio precisando de reparos.

Brincadeiras à parte, há, claramente, um critério para tudo isso. Mas a prática é que esse sistema foi criado na gestão de Olavo Setúbal lá pelos idos de 79 e sobreviveu à diversas mudanças no sistema. How come? Ora, se você já tinha trinta anos em 79, deve ter odiado saber que seu ônibus "666" virou "866B" ou algo do gênero. Eram nove áreas, tudo era bonito e fazia sentido. E se não fizesse, a CMTC fingia que sim. Entretanto, das nove áreas, fizeram quatro. E das quatro fizeram oito, algum tempo depois. E em meio a esse samba do criolo doido, mantiveram o sistema, pois o João da Silva que pegava o 666 detestaria descobrir que o seu ônibus virou 4-066X.

E as cores? Ah, as cores, que pedi para esquecerem. Doutor, veja bem: não é que devem ser esquecidas, mas somos latinos. Como bons latinos, somos especialistas em produzir nuanças gritantes, por mais paradoxal que isso seja. Mas, ora, doutô, somos o paradoxo! As cores remontam, também, ao Olavo Setúbal. A mixórdia de concorrentes, coloridos e outros tipos precisou parecer mais oficial, daí tiveram a idéia de estipular cores para cada uma das nove áreas, sendo que os ônibus seriam pintados no esquema saia e blusa, tendo a saia na cor da região. Ainda havia um sinal forte de que o ônibus era de tal ou tal companhia. Isso, porém, se extinguiu por completo quando a Erundina resolveu concorrer com o Serra e vender seus próprios remédios: aquela famosa pintura da faixa vermelha.

Agora todos sabiam que o "Transporte é um dever do estado e um direito do cidadão". Difícil mesmo era saber de cara quem era o filho da puta que operava aqueles ônibus malacafentos cheios de barata ou daquele desgraçado que não pára nos pontos nem com o ônibus vazio. Impossível era saber, então, de rabo de olho, se aquele ônibus vai para o INOCOOP ou se te levava para as profundezas do Capão Redondo.


Os medicamentos genéricos de Erundina: tão genéricos que a cidade toda usava, recuse imitações. 

Foi assim por longo tempo. Havia variações, como a faixa azul para os ônibus de cooperativa, bem como a faixa verde, para os carrões bem motorizados, resistentes e geralmente usados nos corredores criados por Setúbal (somado a uns já projetados, porém mal implantados). Entendeu? Esqueça tudo. Agora temos novamente quase nove áreas, porém menos uma. São oito, e listar aqui dará sono. Jogue no Google Images: "Áreas São Paulo". A oitava área é laranja, daí o exemplo do 828P e 8705. Agora sabemos para onde o ônibus vai, embora continuemos sem saber de cara quem opera o carro, já que agora é ainda mais fácil de se esconder o logotipo da empresa. E aí chegamos ao problema do "doutô", ali acima: você pode estar em um ponto de ônibus na Raposo Tavares, em plena área oito, e ainda sim vir passar um ônibus verde escuro, indo ao Ipiranga (mas que na verdade vai além e finca sua estaca no Sacomã).

O fato é que não há verdade quando se fala no sistema de ônibus paulistano. Quem conhece, conhece por meio do empirismo. A falta de carro e metrô é um bom meio de treinar os usuários. Os corredores existem, sim, mas não levam objetivamente de um ponto X ao Y. Experimente pegar um ônibus qualquer no meio da Rebouças. Você pode chegar ao Paraíso, à Liberdade ou ao inferno (também conhecido como Praça da República). O resultado da aleatoriedade é inversamente proporcional ao destino em que você precisa chegar.

E, enfim, jogando os dados no tabuleiro e anotando os resultados é a melhor forma de se andar por aqui. Há um amigo meu que tem algo chamado "ansiedade social" ou, em outras palavras, timidez para falar com outros humanos que não os de sua própria manada, sei que ele jamais perguntaria ao seu Zé da padaria. Carajaense da gema, dois, três anos de São Paulo e uma dose de sorte é tudo o que tem nas mãos, depois do confuso site de nossa caríssima gestora de transportes. E, como se não bastasse a multicolorisse, ainda há ônibus prateados, há ônibus intermunicipais e diversos outros tipos de transporte de massa sobre pneus que chamam por aí de micro-ônibus (costumo chamá-los de escória).

Segue assim, que de bar em bar ou de barra em barra, Deus que protege os bêbados e desamparados cuida de levar seus escolhidos para casa. Caso você ouça AC/DC é provável que seu destino seja forçosamente Itapecerica da Serra, então sempre é prudente mencionar que estamos falando de um Deus cristão, entendem? Veja ali: aquele ônibus é abençado por Deus -- "Deus é fiel". Tão laico quanto o sistema da cidade é impossível, já que os ônibus são de Deus, os usuários de Judas e o sistema de Satanás. Aonde quer que você vá, bíblia e candelabro debaixo do braço e lá te vejo! Boa viagem.

Notas:
¹ Segundo o leitor e grande amigo Pedro L. N. Christensen, a linha 8707 apenas tange a Praça Ramos. Vergonha para quem entende razoavelmente de transportes como eu cometer semelhante erro. Mas vejamos isso como um grande exemplo dessa grande confusão.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Urbeum Organum



E naquela manhã, o céu se abria numa aura indescritível. O amanhecer de domingo cobria tudo e todos os cantos. Quase sem rumo, marchando calmamente conforme o Requiem de Mozart, ou grandiosamente conforme 1812 de Tchaikovsky, um indivíduo conseguiu notar o que jamais notaria enfiado em um boné com Sonic Youth nas orelhas e em missão à Santa Ifigênia: o centro antigo sorria com sua velha e surrada dentição, as árvores em contraste com as luminárias ainda acesas carregava o olhar por linhas que sem encerravam na fachada do Edifício Banespa. São João acima, entre restos e rastros, a urbe emerge aos olhos de quem começa a entender a vida.

Pois a vida é como a urbe, afinal. É preciso descobrir suas entranhas, suas saliências. Os relevos dos quais se descortina a vista infinita do mundo, de planalto a planalto. Ao fundo, o quadro encerra-se em duas maduras montanhas. Os prédios, rígidos, fincam firmes fundações na derme urbana, sob a qual o coração nuclear conduz tudo, todos. As árvores brotam como as sardas, as marcas de nascença. E ao fundo, o céu observa, calmo, brigadeiro, matreiro o vai-e-vém abaixo de seus olhos perdidos.

Se corri as ruas em busca de uma tal Vontade Capital, cansado, noite adentro, vi a urbe abraçar-me e encostar seu queixo em meu ombro, dizendo-me ao pé do ouvido sentimentos expressos sob buzinas de carros, motores a diesel e um rufar da solidão pós-semaforo em um dia tranquilo. Como mãe que não abandona seus filhos, fez-me erguer e caminhar, "vá, meu filho, busque e entenda meus sinais, que verá em mim a vida em sua mais completa tradução".

E, agora, que cruzo a Ipiranga com a Avenina São João, posso não entender nada da dura poesia concreta de tuas esquinas, mas da USP à República, já delineio os lábios com os quais não poderia dialogar e finalmente entendo que o físico a rir das Mõnadas Leibnizianas jamais poderia compreender a maior metáfora da vida em sua maior plenitude.


quinta-feira, 5 de junho de 2014

Sapatilha verde-água

Originalmente escrito em 2 de junho de 2013 (um ano atrás)

Uma mulher, de cabelos soltos e ligeiramente enrolados, brincos de penacho e leve batom vermelho, rumava por alguma calçada estragada da cidade, vestida por uma capa masculina relativamente grande para seu tamanho esbelto. Enfrentava as ruas com os lindos pés em uma sapatilha verde-água.

Seu nariz projetava-se proeminentemente na silhoeta desenhada no chão pela luz da iluminação pública. Era noite, esqueci-me de mencionar. Sua respiração calma derretia o coração de praticamente qualquer sujeito. Nada se podia dizer sobre a voz... Não estava falando. Apenas passava. Caminhando para longe.

De longe, um sujeito de pouca barba e borsalino observava o distanciamento da mulher, vestido apenas por uma camisa xadrez. Pouco via-se do sujeito, que conservava-se na penumbra. Apenas divisava-se um brilho longíncuo nas lentes dos óculos que utilizava. Uma fumaça branca erguia-se de seu rosto para o céu infinito.

Nesse instante a mulher já se distanciara bastante. E a cena se decompunha, como em um sonho. O céu tomava cores cada vez mais claras e um ônibus agora levantava a poeira outrora revolvida pelas sapatilhas verde-água.

Dentre o movimento, milhares de cabelos ao vento, batons, tons cintilantes e calmo. Quem seria aquela dama? Será que habitava a mesma terra dos homens? Quiçá metade habitasse, e outra não.

Sentado no muro, um rapaz de óculos tocava guitarra. Sei que eram notas, não sei que gênero, não sei que artista, não sei que música. Mas todos passavam direto. Se, porventura parassem, vidravam. Não pela técnica, não pela guitarra... Mas pelo sentimento que ali pairava.

Abaixo dele, estava ali, caído, um brinco de penacho e um botão. Um botão de sobretudo. A cinza e as folhas cobriam os dois objetos, por sua vez recobertos pelo som da música. Caía a noite e aqueles objetos continuavam ali. As penas de um animal, o plástico da indústria. Natureza e cidade se confundindo.

Naquela noite a cena ameaçava repetir-se. Porém via-se apenas uma figura de guitarra no colo, envolviva em uma capa. Novamente um borsalino e lentes. Uma fumaça acompanhada de notas músicais erguia-se timidamente ao lado do pequeno muro de pedras que separava o jardim da calçada.

A mulher não passara novamente ali. Talvez a mulher só existisse na mente, como deusa. Talvez fosse real, mas ficava para trás como quase tudo na vida, que não seja o cobrador e o motorista.


domingo, 2 de março de 2014

Turmalina: idas e vindas, vida e volta ao Bofiglioli

Quando mudei-me para Turmalina, havia, ali, um dos últimos lugares em que pude ser eu mesmo. Meu jeito por vezes sério, por vezes pueril encontrava ali energia para todos os ânimos: Turmalina era um dos últimos lugares em que era possível ir à padaria para comprar pão e leite tipo A; era um dos únicos lugares em que, até duas da manhã, nada mudava muito em relação às seis da tarde.

Claro, digo duas da manhã porque não estava lá para ver se o movimento continuava, pois, dizem, "nada acontece de bom depois das duas da manhã" -- e não me faltaram situações para aferir a veracidade desse ditado, embora nenhuma haja sido em Turmalina.

Os moradores eram gente pacata, mas havia algo na Av. Giovanna Cabral que tornava Turmalina um ícone boêmio, além de seu nome digno de música: as casas de show. Não era possível falar muito em bares, pois "a Cabral", tal como referida pelos moradores e frequentadores, era um baluarte da arquitetura neoclássica e a prefeitura proibira modificações -- e ainda havia um rígido conjunto de regras sanitárias e estéticas ditado pela subprefeitura.

Lembro-me bem da Rosa Púrpura da Alves, situado na intersecção entre a comercialmente movimentada Av. Maria Martha Alves e 'a Cabral'. O lugar tinha nome de bar de português, mas, se bem me lembro, o Marquito -- proprietário do estabelecimento -- era de Valência. As mesas eram cobertas com toalhas de pano esburacadas que só se justificavam perante as regras da prefeitura a título de estilo, somado ao fato de que a cultura dos fiscais não os permitia aferir se batia com a arquitetura oitentista do restaurante.

Sentava-me ali, duas fileiras para trás do palco. Geralmente, acontecia, em dias chuvosos, de alguns bêbados se alojarem da tempestade ali dentro e cinco minutos depois começarem a sapatear no palco de forma grotesca e sincrética, criando, assim, um evento humorístico que provavelmente só existia em Turmalina. O chopp do Rosa não era algo necessariamente bom, nem lá muito barato, porém sempre havia alguma batida de vodka apenas para passar o tempo, quando o estômago fizesse cara feia para o copo semi-cheio ou semi-vazio padrão alemão estacionado sobre a mesa.

Da janela larga e um pouco suja de gordura dava para ver as trincas nas calçadas e, eventualmente, alguém tropeçando nela, mas sempre levantado aos risos. Poucas vezes vi em Turmalina alguém que não soubesse sorrir de modo alegre e debochado, a menos que fosse algum mafioso (mas estes, geralmente, usavam gravatas ridiculamente coloridas, tornando-os fáceis de se identificar). Os carros eram do ano, e as pessoas se vestiam conforme a época, embora não como ditava a moda. E raramente via-se alguém acompanhado sem tagarelar.

Pagava a conta, saía e olhava os casais andando de mãos dadas, ou se pegando nos cantos. Era engraçado como alguns quase se engoliam durante os beijos, mas isso não parecia incomodar. Os moradores até diziam que era melhor alguns tropicalies (uma gíria local para malandro de praia que só vê praia no fim de semana mas que mesmo assim está sempre vestido para a finalidade de pisar na areia molhada) se engolindo do que aparecer algum triângulo amoroso francês com a baguete debaixo do braço -- "esses casais são a marca do nosso 'foda-se'".

Os tropicalies, entretanto, mesmo andando de bermuda ou saia, geralmente usavam chapéu tipo Panamá e óculos de sol RayBan, pois faziam questão de se integrarem à elegante paisagem.

A luz de turmalina exige um parágrafo a parte. Ali não ventava muito, e no calor era, às vezes, infernal. Eu morava em um flat (em um estilo, hoje, seria visto por uma construtora como um duplex de luxo) de janela grande para "a Martha Alves", aquela avenida que falei mais para cima, e via o sol entrar pela janela do mesmo jeito que via banhar a praia de uma cidade costeira. Faltava, porém, a brisa, e, eventualmente, a praia.

Acontece, entretanto, que as coisas mudavam. Eu mesmo mudei. Mudei para uma casa térrea, em uma transversal da Av. Martha, a Rua Tapioca Chinesa. Essa rua tinha um intenso tráfego de ônibus a diesel, articulados e convencionais. Era infernal dormir depois das 4 h AM, porém havia mais espaço e estava, na época, tentando morar com uma mulher um tanto quanto neurótica chamada Laura. Gostava dela, mas fui praticamente empurrado do flat para lá, pois a mocinha sabia bem que sozinho não iria sair do flat.

Laura conseguiu, com isso, me privar do pequeno escritório do flat, me jogando em um quarto para a rua com uma cama de casal e tudo do escritório aglomerado em volta. Não era possível usar o outro quarto (mais tranquilo, e com vista para o quintal) porque a sogra se instalara ali. Durante esse tempo, então, produzi pouco e também pouco observei. Quando menos me dei conta, tudo tomava uma forma metálica de alumínio contínuo e reluzente em direção ao céu.

Vi, então, que Turmalina virava uma Berrini. Deparei-me com o proprietário do Rosa fechando a casa e me informando que estava bem pago para viver sem restaurante para resto da vida, embora afirmasse que iria sentir saudades dos clientes. Os vidros altos e os entalhes na pedra das fundações e estruturas fôra substituído por prédios de brutal concreto ou de alumínio reluzente, de formas quadradas.

Aquilo era sufocante. Até o prédio em que tive meu flat estava, segundo falavam, em vias de ser vendido à Mendes Sá, a construtora mais famosa da cidade, na época.

Minha cabeça não processava mais dados ou informações. Tudo era espanto, fora de casa. E dentro, bem, acho que não tinha casa, afinal. Na calada da noite, botei meus livros favoritos, trabalhos, máquina de escrever e computadores no porta malas de minha banheira sobre rodas e mandei-me para o Bonfiglioli.

Havia morado lá durante bastante tempo. E, novamente, tudo mudara. É bem verdade que o traçado das ruas e vários conjuntos de casas eram basicamente os mesmos, mas a Av. Corifeu tinha, agora, três faixas em cada sentido e mais uma de estacionamento. Instalara-se um corredor de ônibus, no canteiro central da avenida, e os trólebus subiam em direção ao Terminal Vila Yara, em Osasco.

Sim, era bonito, os postes da fiação tinha design simples e moderno, mas sem serem espalhafatosos. Havia árvores grandes traçando sombra sobre a avenida. Mas aquilo não era mais meu bairro. Havia prédios -- ou melhor: caixas de fósforo empilhadas -- por todos os cantos da avenida, e a esquina com a Praça Elis Regina era, agora, marcada por placas indicando caminhos em direção à Raposo Tavares.

Fiz a conversão, entrei na praça. Agora, a praça tinha uma mão de cada lado, sendo canteiro de uma avenida. A avenida, então, continuava para onde havia um conjunto habitacional, em direção à Raposo. Vendo aquele trevo rodoviário, de longe, compreendi que muito do que conheci já não existia mais.

Entretanto, ainda via alguma vida lá. E os imóveis, embora simplórios e coalhados de apartementos pequenos, ainda representavam mais variedade e cores do que aqueles que se viam em Turmalina.

Me hospedei na casa de um amigo que morava por aquelas bandas e, como não ia lá há tempos, perguntei o que ocorria. Responde-me ele que aquilo tudo fôra consequência da mudança de zoneamento e alta demanda por parte das construtoras devido à construção de uma estação de metrô no Largo do Bonfiglioli.

Walfredo, esse meu amigo, ainda me disse que lá para cima até as ruas estavam irreconhecíveis, embora tudo fosse bonito e arborizado.

Conformei-me.

Aguardei pela noite. Fiquei a observar o movimento. Tudo era entra e sai dos prédios e tráfego entre Raposo e Corifeu. Às dez, tudo começou a silenciar. Só então dei de ombros, ri e notei que, no fundo, o bairro não perdera sua vocação suburbana e achei ali, em um dos maiores defeitos do bairro, a identificação com uma parte de mim e da minha vida.

Quiçá vivamos só dos defeitos!

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Realidade bagunçada

Há muito já precisava tirar o pó dessas teclas. E o pó dos caminhos do cérebro, entumecidos na lama da confusão. De um lado a realidade chapada, do outro a exacerbadamente surrealista. É, porém, assunto para outros textos, essa mazela. Uma divertida moça me lembrou do Notepad, à soleira dos portões do prédio da Uninove, na Barra Funda, onde, empurrado por quatro ventiladores fiz minha Fuvest; logo, precisei escrever. Vocês sabem, redação de vestibular não ganha prêmios literários, mas tudo bem: nem grandes escritores costumam ganhá-los, também.

Júlio de Junho Machado, em suas rondas pela cidade, descia a Avenida Pompéia. Tinha comprado o pão e matutava intermitentemente entre prazer próprio e a vida humana -- e por causa desses 'gaps', tinha tido inúmeros problemas para se organizar. Sua literatura vertera em surrealismo. Não que as formas necessariamente derretessem em sua mente -- o que era bem capaz de acontecer no calor de São Paulo --, podiam cogelar. Tanto faria, ele descrevia o mar a partir de uma torre onde só ele poderia subir.

Mas estávamos longe de Santos. E seus escritores, da mesma forma, bem longe do mar borbulhante que lhe reinava a alma. Seu apartamento na Cardoso de Almeida era pequeno, modesto e tinha uma janela para a rede aérea dos trólebus. E por ali via, entre uma e outra xícara de chá, o correr das alavancas dos elétricos em plena faísca, rumo a Machado de Assis. Entre um filme de Truffaut e um disco do Chet Baker, agitava algum Rolling Stones e, eventualmente, dormia dançando Gymnopedie.

Dançava com o ar e acordava fumando cigarro com o travesseiro. O sol tornava o cérebro de Júlio lento, mas, eventualmente, ele se levanta, contempla o cinzeiro, a janela e o travesseiro e começa a embaralhar as cartas de sua mente quase furando os discos de Satie. Sentia-se metido em um paletó e uma camisa de flanela, mas o sol de fora bate os trinta e Dali se torna realista. Teimava com a sua existência, como poderia não ser assim, Júlio?

De qualquer forma, a vida anima os ossos, principalmente em tempos de geladeira vazia e conta bancária zerada. E Júlio, especialista em química forense, precisava estar às dez em um local que visitaria durante dois dias, em duas rodadas de perguntas e diálogos rígidos de múltipla escolha. Vestibular para química, na Universidade Estadual de Vila Comercial. O dinheiro da garantia estava acabando, mas Júlio tinha modo particular de enxergar a sorte.

Então, abaixo de uma árvore, em seu primeiro dia de exame, fumava um Old Eight, cigarrete paraguaio. Drogado pelo alcatrão plantado em conserva de mictório reciclado, observou o horizonte uma, duas... dez vezes, até defrontar-se com o jeito desconjuntado e afetivo de uma antiga colega. Ana Letícia. Conversaram intermitentemente. E ao fim do exame, todos estavam ali. Júlio, entretanto, continuava fitando o horizonte e imitando Woody Allen entre uma frase e outra.

Júlio, como escritor, era um chato. Observava detalhes inconvenientes e, ainda por cima, tinha sagitário como ascendente de seu signo. Os convivas riam, e Júlio também, embora se corroesse sem saber se riam dele ou com ele. Eventualmente, seria, entretanto, convidado ao bar. Talvez não fosse a melhor das fortunas, porém não era do tipo que fugia de um ácido etílico.

No segundo dia, então, estava marcado o bar. Júlio saiu da prova, colocou seu óculos à lapela e sentou-se nas escadas do prédio. Pensara em esquecer tudo e voltar ao seu apartamento. Pensava à parte. Não que fosse contrário ou a favor de seus novos amigos militantes, porém pensava em fervilhar menos, já que tão poucas certezas tinha para empunhar bandeiras.

Uma moça simpática, de olhos azulados e doces o recebeu na roda de conhecidos que antecedia o bar. Era Helena. Divertidíssima que era, ria-se dos comentários sarcásticos de Júlio, que apesar de ser bem recebido, sentia que seu dial não andava na estação certa. Eventualmente "meio-contava" uma história dentre o burburinho. Quase quieto, fôra ao bar, então.

Junho Machado conheceu seu lado radical, embora apenas durante as retóricas apoiadas pelo cigarro entre os dedos. Gostava de ouvir, e como ouvinte, anotava em sua memória o que mais pudesse interessar a si mesmo e à resolução de sua confusão, eventualmente guardando algo mais, se o dinheiro apertasse tanto ao ponto de ser necessário escrever um livro de auto-ajuda.

Sabe-se lá como, Junho amanheceu em sua cama. Apagou os acontecimentos, mas lembrou das principais linhas de seu caderno mental. Tratou de articula-las em uma obra de arte hermética pós-moderna e desafiadora aos padrões linguísticos. Enviou o resultado final a sua editora, Karine Ludovyko e seu amigo escritor, Alberto Tonyk.

Karine trouxe-o ao céu. Em sua carta em resposta, fez Júlio beija-la na boca com palavras doces e incentivos. Uma pena que os encontros pessoais fossem uma troca de conhecimentos sobre lojas de roupa e as experiências pessoais -- de Karine, claro. Ela elogiou-o e prometeu novamente a coluna que Júlio aguardava há sete anos no jornal do bairro.

Tonyk, entretanto, trouxe-o ao inferno e o fez pegar o elevador para a terra. Dizia em termos censurados, porque senão o politicamente correto acabaria por me censurar o texto todo, que as figuras coloridas navegando em um céu de matiz variável e infinito era digna de desfilar domingo na Av. Paulista e que se Beatles era referência, era bom esquecer a literatura e virar músico. Pôs-se, no final da correspondência, a revirar a semântica de cada literato até levar Júlio a um sono profundo de pesadelo garantido.

Era, porém, comum. Alberto, ao tomar cerveja com Júlio normalmente era calmo e sarcástico. Sua paciência oriental permitia suportar as lamúrias quase femininas de Júlio, quando este tomava um fora. Só que Alberto, quando lia, esperava encontrar James Joyce, pois, como dizia, se quisesse ler sessão da tarde em texto, compraria Paulo Coelho.

O equilíbrio era estonteante. Karina o levava ao olimpo dos escritores e Alberto ao inferno dos jornalistas contemporâneos. Com isso, se tornava barata tonta prensada entre dois extremos. Poderia se defender? Não. O que defender, então?

O tempo passou. Júlio por pouco não passara e agora estava novamente trajado de policial civil, caçando pedaços de ossos e pele em cenas grotescas. Seu estômago desde muito cedo treinou-se para tal, já que em sua época Menudos era moda na TV. Não se reprimiu e entregou três relatórios de cena de crime em menos de uma semana. Deu um tempo na máquina. Arriscava linhas tortas, mas acabava sempre descrevendo a rotina do embalsamento dos mortos.

Achou um caminho, porém. Não queria defender a passagem zero para os ônibus da cidade ou a democratização no uso do escorregador. Achava isso muita responsabilidade e incompatível com seu modo leviano de ver o mundo. Certa vez iniciara uma campanha em prol do retorno do jornal do bairro às maiores bancas. Uma das poucas causas maiores que sua casa, mas largou-a, depois, na mão de estudantes e moradores mais inflamados. Seu caminho, então, foi defender a vida como ela pode ser vivida.

Não queria mais saber dos padrões. Fazia um estilo de mistureba, de terninho e camisa regata adaptada, na maior feijoada adaptada ao clima tropical, lançava seus comentários sarcásticos e sua visão pessimista, mas absurda e hilária do mundo. E achou em seu defeito o modo mais improvável de conquistar as pessoas. Lembrou de quando conversara com Helena. Afinal, na síntese, ainda era reclamão, mas ao menos fazia com que seus interlocutores rissem.

Conformou-se com o fato de que as pessoas preferem viver de risadas. E quem pode culpa-las? Já se afundam em cerveja quando sofrem perdas materiais, morais. Se descuidam quando perdem o rumo. E tal sucede a todos aqueles animais engravatados, arcados e de cara fechada. Por que teríamos evoluído, se fosse para ser assim? Deuses nos deram nessa evolução laboratorial um sorriso e um olhar poderoso, que o usemos enquanto é tempo.

sábado, 4 de janeiro de 2014

E, com uma dissertação furada, comemoro meu post de número duzentos

Cidade. Ruas, avenidas, carros e jazz. Familiar? Ainda procuro figurar. Dentre tanta confusão podia imaginar Júlio de Junho Machado entre um semáforo e outro com as mãos metidas no bolso. Fazia mais do que só fitar em vazio as grades dos edifícios e veículos. Pensava algo mais.

Quem o conhecia, facilmente te contaria, durante uma festa regada a discoteca e golas estendidas pela lapela dos blazers acinturados, que sucedia a Júlio de Junho era uma quebra de paradigma. Parecia que o passado o assombrava com regular frequência. Um escritor arrependido, amargado. Culto como algum Marcola.

De qualquer forma, seus vizinhos podiam jurar ouvi-lo berrar, por vezes, "não toque nessa porta" ou "João da Bomba, tu me pagas" -- o emprego correto da segunda pessoa dependia da intensidade da crise. Da Bomba poderia ser um discotequeiro das baladas de esquina daqueles remotos anos oitenta ou algum criminoso. Pelo jeito pecava por se entregar às noites regadas a Disco e cocaína, ou às tentações do poder conferido pela pólvora.

Por outro lado, supunham alguns que só se perdia nos olhos de Maryan Tonyk, uma húngara de família árabe que conhecera fazendo prova na PUC. Doce mas matadora, não poupava um nas ruas do Jardim Éfeso. Ela costumava andar de saiote preto às manhãs, na Avenida Ilium, exibindo um sorriso bobo, mas preciso. Perdeu-se na escola de artes, mas fez de Júlio seu escritor e assim estava feita.

Enfim, de uma forma ou de outra, Júlio estivera ou está detrás das grades. Se não se arrependera de dançar ao ritmo frenético de "Never Gonna Give You Up", acabaria cantando a música sozinho na rua, pensando nos olhos e no busto de Maryan. It goes, it comes. Júlio é como todos nós.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Algum amor para nós

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Minha juventude está chegando à metade que passa mais devagar. Ou depressa, a depender de quem observa ou com quem ocorre. E, apesar dos pesares, já tive diversas oportunidades de ver de tudo e observar como o mundo ao entorno absorve minha existência, existência de amigos e, principalmente, de casais felizes aleatórios.

Novamente, apesar de todos os pesares, é comum que amigos venham se consultar comigo à respeito dessa área tão complicada. Não creio que a cara de experiente que me atribuem se deva à barba, porque se qualquer coisa se devesse à minha barba, eu já estaria indicando shampoos contra a calvície. Probabile est que apesar dos pesares conheci bem as entranhas idealizadas do namoro. Bem, por tabela posso assegurar que sim.

Contudo, nada disse até o momento. E o leitor me pergunta: e daí? Se estivesse lendo isso no ônibus, certeza tenho de que a pessoa ao meu lado desceria e estaria eu lendo o texto até que que meu corpo vertesse em trincheiras de cálcio vazadas. Retornando, grande pergunta é, afinal de contas: qual a grande complicação?

Eis uma boa pergunta. A quem se propor a me explicar de forma científica, usando os termos da metodologia de mesmo nome, deixo meu respeito, que se não vale para comprar sequer um pão francês, ao menos vale a indicação para pessoas próximas que gostam do que digo, já que, como não o faço mal, há sempre quem goste.

A fórmula é nula. E um sentimento complexo, emergido da civilização acaba por ser uma das poucas coisas à qual não se atribui com ela, mas sem a qual viramos animais ou carcamanos poetenciais.
Mas alto lá! Disse que a fórmula é nula. Entretanto não ser tolo é regra. E isso, afirmo, é mais difícil do que se parece, quando a razão começa a ser perdida. Como reagir a isso? Uns se tornam frios, outros rígidos. Alguns outros permanecem incorrigíveis.

Tenho uma particular admiração pelos incorrigíveis. Eternos falhos em suas vidas, pelos padrões genéricos, mas acabam por dar um jeito de se acomodarem no mundo, satisfazendo um pouco as ambições. Aprendem a conciliar a razão ao emocional. Mas apanham feito cachorros no início, o que os leva, por vezes, a incubar idéias tortas sobre o viver, a civilização e a raça humana. E a velha história: quem muito toma na cabeça, às vezes se torna de vez insano.

Frios e rígidos são, em essência a mesma coisa. Não há forma simples de diferencia-los em um simples artigo, embora qualquer pessoa sensata que conversar com um ou com outra saberá identificar a diferença. Como não dou aulas no jardim da infância, não vejo grande necessidade em me estender nisso.

São um tipo bizarro, engraçado, já que buscam manter a razão na rédea curta e recrudescem frente ao mesmo minúsculo medo de perdê-la. Mais ou menos como aquele seu amigo que briga com você para o resto da vida, apenas porque não quer ir à montanha russa. Não se permite o mínimo sacrifício. Suicida-se lentamente para não se sacrificar um pouco em causa própria. Fala como se o mundo fosse acabar, quando fala. E se fala, é da desgraça que deixou acontecer, achando que poderia impedi-la. A grande desgraça pintada de batom.

Até o momento, tudo bonito. Mas proponho: por que não um meio termo? Ao invés de incorrigível putanheiro profissional (e depressivo nas horas vagas) ou rígido virgem de quarenta anos, porque apenas não deixar fluir o momento? Chamaria isso de semanismo. Diarismo já é profissão; por isso juro que semanismo só se fez o termo por puro problema etmológico.

Semanismo? Sim, um dia, uma semana. Oito dias. Para quem não tem certeza do que se colará na parede da memória com durepox ou superbonder; ou do que será enquadrado ali com molduras de aço com frisos de prata. Uma semana de carinho, um dia de sol juntos. No meio do tempo, um filme. Uns beijos... Eventualmente um sexo com algum amor. Para que tanta preocupação com o destinatário certo, se há quem morre sem saber o endereço desse tal?

sábado, 14 de setembro de 2013

Pequenas Coragens

O que não faz um pouco de cerveja? No limite do ser humano médio sempre está a boa breja que vale a semana... Todos sentados na mesa de madeira sem pensar na utilidade das palavras... Metade delas se perde ao som do motor do Volksbus, que passa levantando a poeira da sargeta; a outra em conversações desconexas. Tudo começa aí, aquela boa gasolina à mente/alma/soul/espírito/qualquercoisaquepreenchaoseuser.

Alguma vez você já sentiu que poderia morrer que tava tudo beleza? Nosso personagem já, acho. Diz-se pelo vocábulo tradicionalmente proferido pelo clã da erva seca que tudo o que precisamos é de vinte segundos de coragem insana. Ora, como jovem, não posso pensar em uma verdade tão grande. Mas a alma precisa estar abastecida. Sua vó já dizia: saco vazio não para em pé. A alma funciona do mesmo jeito.

Ou seja, o depressivo/deprimido no sentido popularesco da coisa é, por tabela, um covarde registrado. Ora, antes de se sentir ofendido, pense que falo isso por experiência própria.

Mas voltando ao prumo do assunto, digo que pequenas coisas (ou pequenas doses, dependendo da composição do sangue e da massa encefálica do cidadão), são, por vezes vistas como coisas que valem a vida fazer a pena. Claro, não uma ou outra, mas todas em conjunto.

E, de repente, em uma noite de felicidade depressiva (santo paradoxo, meu caro), você se acha com o pão quente no colo e umas idéias na cabeça. É tarde, para os padrões suburbanos e ser assaltado a mão armada é uma provável sina, como o bom paulistano sabe. O que você faz com vinte segundos de coragem alimentada à álcool (porque gasolina tá muito cara)? Claro, você ameaça mandar o filho da puta atirar se for se assaltar... E você morrerá com o pão na mão.

As notícias dirão, que um cidadão morreu, levando pão quente para casa. Se o que você é para os amigos não é imortal, ao menos ser morto com o pão quente no colo, voltando para casa após a cervejada, há de te fazer minimamente memorável.

... Talvez...

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Domínio

É absolutamente inegável que o blog teve avanços nos últimos anos. Tanto literários, como técnicos. Isso desde a época em que deixei o layout bomba padrão, para adotar um simples, com um banner no topo (2008) e, posteriormente, adotar o famoso layout "soco no olho" (2010), lembrado pelo fundo verde e letras brancas (ou cores parecidas em semelhante ordem). Em 2011, o blog ganhou uma layoutação baseada no projeto do jornal da ETEC, para, logo depois, adotar uma dissidência deste layout, que é atual, como vêem.

Literariamente nem preciso explicar. Basta dar uma rápida consultada no histórico, à direita. Não que eu pessoalmente recomende a experiência (e, também, duvido que alguém teria a santa paciência de ler os textos de um, vos digo, moleque). Só por isso, poderia nomear o blog de "crônicas de um pirralho revoltado", porque, se para mim é vergonhoso, ao menos para os outros pode ser fonte de muita risada. Bem, é justo.

Já me chamaram de introvertido, direitoso, rancoroso e, claro, ignorate. Obviamente, muito disso acompanhado pelo adjetivo companheiro de todas as horas, "reacionário". Mas não me ofendo, ao menos hoje. Esse espaço tão quieto, nos últimos tempos, é sombra de um monstro lido por muitos alunos do Porto União, que, obviamente liam rindo ou rangendo os dentes. Ao menos, valeu entender a dimensão que um espaço na internet pode ter.

Sei bem, já paguei bem a língua com coisas que escrevi aqui. E não uma ou duas vezes. Se bem me lembro, foi mais de cinco. Hoje acredito que isso valeria ao emissor da crítica um maço e um abraço, já que é tão difícil entender o mecanismo que rege a mudança de pensamento.

Mas sem resentimentos. O tempo está maluco, 2013 voou, mas trouxe com ele chegou uma pequena mudança ao blog. Agora, finalmente, estou usando um domínio próprio. O antigo continua valendo, mas não estou certo se o leitor RSS vai continuar funcionando, provavelmente vai, mas é o domínio novo, ora. rs

http://blog.prppedro.net.br

Abraços,

T.R.P.

domingo, 24 de março de 2013

Ofício

Uma justificativa ao suposto fracasso

Não é novidade para ninguém que o ofício de qualquer ser humano é viver. Não importa muito como. Cada qual tem seu próprio jeito de ser e viver e o que diz respeito a nossa vida, só a nós compete. Sim, um perfeito discurso de Orkut, no qual só falta os erros gramaticais. Ou faltam. Pronto, temos um.

Porém, gosto de escrever sobre minha falha jornada, porém, por "eufemiotimismo" prefiro chamar de "fase de testes". Gosto de citar meu pai, que diz em um poema de sua juventude "embalaram-me monstro". Se filho de peixe, peixinho é, de alguma forma muito tenho de meu pai, faltando apenas a vida por vir.

O ofício aqui, não é o de sobrevivência -- esse trabalha apenas com hipóteses e dados binários e intermináveis circuitos. O ofício a que me refiro é a tarefa de acreditar em modelos que, decididamente, não funcionam mais. E, claro, não poderia ser fruto de qualquer outra peleja que não fosse aquela velha entre coração e sanidade.

É fácil agir com sanidade se o coração pesa leve. Mas quem determina isso não somos nós, é a nossa casa. Ainda que eu ache que os duros são apenas pessoas que se fazem de secas por cima do coração mole... Mas sem delongas e antes que isso lacrimeje piegas, tenho como objetivo explicar porque me é difícil não escrever.

Escrevo porque há papel, pois se não houvesse, fala-lo-ía. Ora, isso acabou. Ler todos lêem, mas e procurar o sentimento? Em época de leves penas e plumas viajantes, a quem escrever? Todas ocupadas, pessoas lêem correspondências durante a madrugada e apressadamente respondem. Ainda sim. Faço o que sei fazer, e se não faz questão de a meu patamar subir, procuro então outra deusa. Enquanto espírito não faltar, palavras também não irão.

Estou, provavelmente apto a me tornar um fracasso nato. Mas em "A lógica do estepe" fui muito claro, existem outras formas de se resolver problemas passionais. E sempre existem produtos mais baratos no mercado.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Vivacidade

Nota: Esse texto foi escrito por mim, em homenagem à Bianca Ferro

A vivacidade aflora eu seus olhos, garota. Como consegue despontar tanto na beleza? Terá sido obra de acordo com os colegas do Olimpo? Ou uma deusa que, simplesmente, desceu dos céus para caminhar um pouco nas calçadas esburacadas de Sampa? São essas as perguntas de uma mente boquiaberta, frente ao seu brilho.

Em várias épocas, dizia-se que pensamento era a beleza. E viviam por aí promovendo a mensagem de que o caráter era tudo sobre a pessoa. Inclui-se aí o que falam a respeito de como se deve desencadear uma paixão -- pelas teses instituídas é pelo olhar aguçado que julga mais páginas do que capa. Plena verdade, beleza não é tudo.

Muitos livros de capas feias guardam consigo as belezas da humanidade. Mas de que adianta um livro ruim de capa bonita? Estou certo de que quem dota uma capa de beleza e de brilho, em um ato de muito amor, não deixaria que só existisse uma capa! Alias, que criador sonha com uma lombada vazia?

Na arte de sua fotografia, o brilho de sua mente vem aos olhos e conjugados a este seu irrestível corpo de deusa, um rosto de curvas tão graciosas e um cabelo quase cacheado são de destruir a mente do mais pacato cidadão. Bem, você sabe disso! Deusas conhecem seus poderes.

Olhos bem abertos e lúcidos de inteligência não negam a essência matadora de sua pessoa. Matando sonhos e substituindo-os por outros melhores. Mais apaixonante do que uma linda mulher é uma linda mulher sagaz e consciente de seus poderes como deusa.

Abraço!

sábado, 5 de janeiro de 2013

A "lógica do estepe"

Mais uma vez, dentro de um curto período de tempo, venho aqui falar um pouco sobre o que me vem à cabeça. Tenho certeza que dessa vez, porém, encontrarei mais pares dentro do que penso do que em minhas nebulosas metáforas pessoais. Venho tratar sobre o que costumo chamar de "lógica do estepe". Primeiramente, já afirmo que se trato de amor, aqui ele é a figura universal que da mesma forma se manifestou durante toda a sua convivência com a humanidade. Descarto as novas formas que ele possa tomar, exceto quanto a algumas das flexibilidades que nossos tempos conferem aos que se encorajam em conseguir a mão de suas amadas com base na lei da oferta e da procura, que, nesse setor, se aplica de uma forma sutilmente diferente. Mas não convém explicar isso nesse momento.

Começo analisando o objeto estepe. A princípio, não é de se discordar do fato de que o estepe é um item de segurança. E, por tal motivo, é dono de uma enorme fatia de importância. Entretanto, por não rodar direto no asfalto, jamais há de ser o pneu mais importante de um carro. Muito pelo contrário, só se lembra de sua existência, quando o aventureiro já anexado ao eixo falha. A explicação é óbvia, mas é a parte mais importante do "ser estepe".

O "aventureiro" - note aspas - ou, simplesmente pneu instalado, deve, inicialmente rodar sem menores problemas, devendo, após algum tempo, começar a apresentar algum desgaste. O estepe está novo em folha, porém, pela estabilidade adquirida no desgaste equalizado em relação aos outros pneus e a facilidade com um solo específico não encontrada na estepe, ainda torna-o revezável com o estepe em muitos casos. É, isso é um pouco difícil de se entender, mas espero, porém, conseguir elucidar qualquer dúvida possível que possa resultar dessa metáfora.

Normalmente, ou ao menos nos tempos em que os pneus dispensam maiores tratamentos, o fim da vida útil de um pneu significa recauchutagem e a troca por um novo exemplar. O estepe se tornaria o pneu principal, então. Lógica simples. Porém, não é assim que funciona. Pensemos melhor, pensemos como na Fórmula 1. Há pneus para chuva, para piso seco... Enfim, varia pela situação enfrentada pelo veículo. Penso que a situação se faz parecida: o pneu substituto fará melhor o trabalho e obterá melhor desempenho na nova situação.

Ainda sim, ainda faltaria algum pedaço à "lógica do estepe". Ah, sim, claro: o pensamento que a rege e preferência forçada por algum tipo de pneu. Que bem entendo ouvindo, mas pouco entendo pensando. E é neste ponto em que precisarei largar mão da metáfora e alçar breve vôo ao reino humano para entender de forma não mecânica como os sentimentos humanos são capazes de produzir os efeitos da "lógica do estepe".

Primeiro: não se pode ignorar que uma ausência incentiva o ser na procura de novos caminhos que supram os efeitos causados pela ausência. Segundo: tampouco pode se ignorar que em um momento de ausência não se possa encontrar qualquer caminho que supra suas necessidades "espirituais" (aqui entre aspas, pois não consigo achar termo melhor, no corrente momento) ou - importante - até supere-as! E nesse patamar de procura, encontro de algo diferente - mas satisfatório - é que se forma a "lógica do estepe". Encontra-se um potencial substituto, que é colocado, então, em teste.

Mas os testes jamais terminarão. Ou muito demorarão para fazê-lo. Pois muito da lógica estepe se estabelece sobre a segurança - ou a imagem dela - construída sobre o produto atual e que, decididamente pode não existir ou simplesmente ser uma idéia forçada, apenas baseada no intuito de não ter que arcar com as consquências de uma nova substituição. Isto, senhoras e senhores, é a lógica capaz de transformar muitos amantes em eternos servidores. Processo o qual muitos conhecem por outro nome. Processo o qual, muitos sequer sabem estar colocando em prática. Processo o qual muitos são submetidos sem saber muito o que fazer.

O "amor de estepe" pode não ser um produto de mercado. Mas arrisco-me a dizer que quase está lá, de tão comum que sua expressão no meio é. Reflete um inflexível caso em que o amor se expressa de forma tradicional levando-o à quase servir a amada. Mas dentre tanto velho nevoeiro, os novos tempos dão a saída: o pequeno amor sem compromisso, nos permite viver um pouco menos como estepes, que só chuva tomam, sem nunca conhecer o chão.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Cruzando os céus do novo ano

"The bad news is time flies. The good news is you're the pilot"
-- Michael Althsuler


Parece que foi ontem, mas já há quatro dias em que o ano de 2013 se faz presente nos calendários ao redor do mundo. Ajusta-se o altímetro, novo nível alcançado, mais uma marca do tempo nas cadernetas de cada um. Passa-se mais um teste e elabora-se outro rascunho. Se renovam esperanças, se consolida uma nova era, ao avanço do tempo.

O tempo voa, jamais para. E, consigo, leva o passado, para bem ou para mal, irreparável, imutável. Três vivas à imutabilidade do passado! ainda friso. Esse conjunto de experiências que para trás deixa-se e os efeitos consequentes de cada atividade é a formação de um sujeito.

Como seria se a máquina do tempo desse a chance de se modificar o passado consolidado? Quiçás, diversas vidas haveriam de ser poupadas, aviões não haveriam caído, a revolução francesa não se haveria travado. Mas se não é, a estabilidade, do ser humano, parte; é justamente sua contraparte que invoca a arte. Sem dor não há arte, sem instabilidade não há nada que dor provoque. Sem arte, não há o que se registrar.

Tampouco haverão inventos. E os anos que se passarem só serão uma mera contagem referencial. O tempo pouco importará, se tudo estiver em um mesmo plano.

O tempo voa. Nos cabe guiá-lo. Às vezes, parece quase parar. Em outras, parece quebrar a barreira do som, como um certo flying delta. Quem dita velocidade e destino são os ponteiros do relógio, ao viajante cabe apenas navegar pelas belezas que a vida nos trás e melhor saber aproveitá-las, antes que o partamos para o último vôo.

O ano que se passa, e o novo ano que entra é como número do vôo. Por certo, pouco importa a forma como se recebe o bilhete. Alguns preferem recebê-lo em trajes de pai de santo. Outros preferem fazê-lo reiterando os laços de amizade. Mas, ao fim de tudo, o bilhete estará na carteira. O bilhete que trará mais algumas milhas de vida, quiçás acompanhada de algumas tempestades, quiçás das luzes estelares. Há coisas que somente o tempo reserva aos viajantes que cruzam seus mares e céus. E pouco há o que fazer por parte do viajante. Este apenas navega com toda a força que os braços podem lhe conferir.

Era de mudanças

Pode parecer estranho à muitos, porém explico que não me agrada muito escrever sobre meu próprio indivíduo. Às vezes, isso me soa um tanto quanto intimista e egóico. Afinal, não acredito que um pequeno acontecimento que se suceda a minha pessoa - em regime de, definitivamente, nenhuma exclusivade - há de adicionar muito à experiência mundana.

Entretanto, me agrada escrever. E, caso julgue necessário, hei de narrar um pouco do que me aconteceu, apenas com o intuito de não deixar passar certos momentos em branco ou simplesmente delinear momentos de modo mais literário.

O momento - ou conjunto deles - em questão, foi uma passagem um tanto quanto diferente. É aquela diferença de ambiente, de turma e de situação que dá o velho atestado da passagem do tempo, mas de uma nova forma: os acontecimentos e suas reações a ele. A prióri, a passagem do tempo só era atestada por aquele algarismo que somava a um, a cada zero hora daquele trinta e um de dezembro.

Mas, agora, já devidamente registrado na receita e com a lata de cerveja na mão, a vida passará diante aos olhos com outro brilho. Já deixará de ser um requinte atormentar os bichos, bem como correr ao redor da casa - embora, a grande verdade é que, espero, todos já tenham deixado de fazê-lo há um bom tempo; porém acredito que tenham entendido a metáfora. Por mais que um ou outro passatempo ainda permaneça, a vida, de uma forma geral, muda... Agora a voz sai um pouco mais grossa e a barba cresce como uma grama preta, cercando o queixo.

Algumas dúvidas adolescentes se tornam certezas e agora somos donos de nossos próprios destinos, pois a casa dos pais não há de ser o destino final de ser humano algum. O tempo há de nos fazer voar, para longe ou para perto, mas para um novo destino por nós construído.

Mas o melhor - ou pior - de tudo é que isso é um flash, apenas. Não há muito o que pensar, apenas sabe-se. E nunca encontraria uma melhor cerimônia para ratificar esse sentimento novo como aquele bem comemorado natal, na casa dos "Pinheiro Paes Leme". O cruzamento entre estradas em que minha família encontrara os mais distantes descendentes do caçador de esmeraldas. Pessoas que, por certo, combinaram traços peculiares e brilhos de ambos os lados.

Sabe-se que entre o fotógrafo bahiano e o caçador de esmeraldas há grande distância. Mas isso releva-se, já que todos sob mesmo teto riem, dançam e cantam. Se há problemas internos, não há como dizer, porém, que as rupturas nos separam. Somos um brasão, que, se para uns é motivo de riso, para nós é motivo de champagne - e, quiçás, de mais cerveja.

Diria que são loucos aplicados, mas quem em sua loucura fazem o bem da companhia. Está comprada minha passagem para o clube. Uma dama, inclusive, me encantou muito. E acredito que haja recebido uma recepção perfeita pelos portadores do escudo.

Au revoir, Sapins!

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Além da ágora

Os passos sinistros de sacerdotes rubros ressoam como ritmado e constante rufar de um tambor. No número 43 da praça, diversas pessoas paravam para ouvir parcamente o que se rezava em voz baixa. Não havia sequer um desavisado que não deixasse sua marcha para observar o fenômeno.

Aquela praça não era mais a mesma. Há pouco, fora sacrificada uma cabra, e o sangue que escorria pelo chão constituia no tapete da cerimônia. A cabra, por certo, não fora o único animal morto e pairava no ar um clima de desgosto. A usual retórica que se ouvia frente a assembléia fazia-se ausente, e, na lacuna deixada pela não-reunião dos cidadãos, marchava ali um grotesco ritual popular.

A bem verdade é que todos fingiam saber o que acontecia, ou tinha uma certa certeza. Pouco sabiam o que tudo aquilo significava. Um sentimento lhes tomava a cabeça e cada vez mais marchavam rumo ao Palácio da Justiça, no final da rua. Olhos vermelhos embebidos da justiça das matas prometiam acelerar qualquer julgamento que se baseasse em qualquer folha da papel. Os cidadãos encontravam-se em um almoço. Quando perceberam, estavam cercados.

Um deles, Carvalis, levantou-se e dirigiu retórica frente aos olhos vermelhos. Viu nos olhos de cada um daqueles sacerdotes surgir o fogo. E, em alguns instantes, nada mais sobrava do que labaredas esverdeadas e alguns tijolos que, se muito, se assemelhavam a casas de boneca. Os cidadãos, do alto de suas espadas sem fio e da fraqueza dos homens de armas do palácio, entregaram os pontos, e para uma infinita expedição, para além de qualquer bojador.

A marcha continuou. E a cidade, prédio a prédio, ruía frente a força nova. Aquele ar novo, repleto da nova religião. Pouco sabe-se se grandes templos construiria, mas ainda é cedo para se dizer. Alguns cidadãos, relegados a mendigos matemáticos, ainda cuidavam de contabilizar cada tijolo perdido. E viam seus legados se perderem, frente a um rufar de tambores. O que haveria de tão hipnótico em similar rufar?

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Musas

Ninfas das árvores da estrada para o Olimpo. Que mais dá para dizer? Muito acertadamente hei de afirmar que praticamente nada, se excluirmos o fato de que a humanidade as faz não quebrarem a barreira da perfeição. Mas como deusas greco-romanas são belas em seus defeitos, lindas em seus traços. E diferentemente destas últimas, existem ao nosso lado, ainda que intangivelmente separadas pelos braços do que é, na maioria das vezes, qualquer arquétipo da velha laia.

Mas se as deusas tem seus defeitos, também os tem os deuses. Ou, ao menos, o que para elas são seus companheiros de Olimpo. A sabedoria divina difere da sabedoria humana. A sabedoria divina se enterra sob diversas atitudes que facilmente identificamos naquelas crianças que brincam no quintal. Em nosso solo, há de ser o homem o máximo possível magnânimo para que as chaves da eternidade consiga, e não há de usar poderes para batalhar seu caminho.

Hão de ser os neurônios a mais poderosa arma humana. Com inteligência e paciência, e sintonizado na frieza da musa, a perseverança há de guiar, fora da mira dos incautos deuses, pela trilha do sentimento forte. Coração que bate pela vitória, clama pela taça. Porque se criamos deuses, somos, na verdade, nós os deuses, e nossas as deusas, que conosco foram criadas, e um para o outro fomos feitos. É amor apenas a peça que faltava para que dentro do Olimpo estivéssemos.

domingo, 29 de julho de 2012

Bifurcação

Originalmente escrito em 8 de fevereiro

Um certo final se aproxima. Falta muito tempo, talvez, para muitos. Para mim, poucos, dado o fato de que se esvairá sem que se aproveite o máximo. Mas o que fazer se a força do acaso apresenta-se em forma de bifurcação? Duas estradas, mesmo destino. Gostos diferentes... Não sei.

Chove. Uma chuva de pesados sentimentos em cada um dos caminhos. Decisão impiedosa, determinante do futuro. Formas diferentes de se culminar na paulatina separação, deterioração, tempo afora, do que outrora trazia tanta satisfação astral. Não sei se fico, não sei se vou.

Na ácida chuva, fim de estrada reta, paro e penso, olho em diante e lembro de que nem sempre nos dotam de machados para abrir outra estrada. É ficar ali, até que o final se faça sentir, ou viver enquanto o presente lhe faz sorrir.

Mas, se afinal, o futuro de médio prazo há de apagar o presente tão brilhante, não causaria mais dores o final? E assim estaco, entre a dor do arrependimento ou do final. Nada parece adiantar em uma vida tão curta, em tempo tão curto. Todos, de relógio no pulso, as horas passam, o ano passa.

E tudo o que já não durava para sempre, passa a enjoar ou “tirar tempo” das pessoas. Tempo é dinheiro... E todos querem ganhar, sem saber que com dinheiro não se paga o preço da amizade.

Metaforizo porque deve haver quem brinde com uma taça de vinho tais relatos. Há; pois, de reconhecer a dor da indecisão, precedente de qualquer outra.

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Boa noite, leitores.