quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Meses Áridos X - Retomada

São cíclicos os movimentos das nuvens, ainda que imprevisíveis. Mesmo assim, sabe-se que num dia chove, faz frio, venta. Noutro, racha o sol forte e tropical sobre as cabeças. Acontece, porém, que é justo por sermos tropicais é que raro mesmo é um dia de chuva e jazz. Domina o pagode, axé e sol de rachar. Há quem goste, mas há um certo articulista que não aprecia muito este ambiente.

Esqueçamos também a humidade. A mania cartesiana de enfiar a ciência no meio parou por aqui, pois a questão é literária. Parece mesmo que são os tempos, como se isso já não houvesse sido falado algumas dezenas de vezes. Pouco importa. O sujeito senta no banco do ponto de ônibus, mas muitos passam, nenhum é o dele. O calor é insistente. A cerveja faz falta, mas se tem é apenas Itaipava.

Já há muito se fora o elixir da Deusa. Talvez ela estivesse por lá como bom ouvido amigo. Era, porém, uma deusa de tempos remotos. Em tempos aridamente pós-modernos, só mesmo uma deusa kafkiana cairia bem. Embora, claro, ignorando uma provável contradição nos termos.

É uma estátua de jardim, mas fuma com estilo -- ou não fuma? Cada um faz a imagem preferida. Para Kafka, um humano pode verter em barata. Não pode uma estátua de jardim fumar?

O calor não dá trégua. Mais um pouco, a estátua derrete. Será de parafina, sal e água ou água e sal? É estátua mesmo? É vela ou fumante? Cada dia um aspecto, cada dia uma imagem. Um dia um universo, um dia, bem... um universo. Parece não estar no mesmo local. É, parece ser uma estátua. Dessas iluminadas por uma luz macabra, no fundo da mente.

Uma estátua ou objeto sensível regado a uma avaliação transcendental... meio kantiana. Entre o fastio do sol, um abraço sem correspondência e a incerteza das conexões entre objetos metafísicos, há quem não engasgue com tanta poeira de velhice e terra cansada?

Para quem passa a vida levando como hobby (ou profissão) uma arte empírica, cujo fim não é em si, tudo parece distante. São estas as pessoas solitárias, autômatas, cartesianas. Algumas se debatem em suas gaiolas, outras riem-se. Esse riso sim, com o fim em si, vã e rala tentativa de vencer o fastio da vida. Apenas apressa, no entanto, a chegada da aridez.

Há ainda os artíficies dessas ciências com fim em si. Ainda mais perdidos que os fúteis empíricos. Pesquisadores do Instituto Pinéu, tentando racionalizar ou relativizando razões nesta eterna casa da mãe Joana.

É dos tempos? É dos tempos. É de hoje? Talvez não. Só se deu a chance a alguns bocós de mola. Merecem? Vá saber. Nem lembro o que jantei ontem. E já me perdi novamente. Na verdade, na areia o potássio nem conduz. Acabou a sinapse.

Já a sinopse? Ela continua, inacabada, nauseabunda. O tempo insiste em continuar, o clima insiste em secar. Quanto menos água, mais briga. E quem escreve é quem ficou na berlinda tomando só a poeira na cara.

domingo, 1 de maio de 2016

Técnico III (ou IME I)

Há muito pareço estar apartado de meus velhos hábitos. Escrevia frases compridas como fios de macarrão. Os textos eram como spaghetti. O que, porém, terá mudado tanto? Duvido ter havido mudanças significativas, retive minha essência. Tardes se passaram, o sol se pôs milhares de vezes. Às vezes um tépido pôr do sol nublado, às vezes contrastando concreto enegrecido com céu ardente. Milhões de pessoas passaram, carros desceram, subiram. O caos e a confusão perduraram, muitas vezes. Houve paz momentânea. Mas somos paulistanos e a cidade não para jamais.

Esses tempos, porém, ando na mesma daqueles dias longínquos. Sento-me ao computador, abro as linhas de código e vejo se a elas dou melhor sentido do que aquele dado aos meus pensamentos. Num ato pragmático quem sabe não faça daquele código confuso a salvação para a ordem furada desses neurônios? A conjuntura agora é um pouco outra, é verdade. Sento-me ao meu lugar nas aulas de lógica de programação ainda coçando os olhos de sono. Não vejo o sol se por enquanto dou um jeito no Pascal, mas sim o sol raiar enquanto procuro dar sentido a algumas linhas de código C.

Se algo me dá saudade é daquele sintetismo único expressando os problemas da vida imediata. Azedo como Álvaro de Campos, assertivo como um pré-socrático. As imponentes frases impunham uma crítica afiada sobre tudo o que se vivia. Mas que adiantou? Quem é que tira margarina com peixeira?

A vida seguiu seus impulsos. Parte dela virtualizou-se, outra vive-se nos raros momentos de paz na urbe. Mas também não se ignore: no frenesi urbano há vida também. Cada indivíduo opera parte dessa máquina e gritar pela racionalidade ampla, geral e irrestrita parece tentador, mas é jacobinismo e impossibilidade combinados. Afinal, haverá uma consciência coletiva possível?

Juntei-me ao que via como algoz. As granadas de tela luminosa, os torpedos de SMS, as balas de mensagens instantâneas, tudo isso já faz parte do arsenal. Entrei para a guerra, mas luto com a vida e pela vida. Não esta breve e biológica, mas a grande vida humana. Temos nossas causas, nossas razões. Nem tudo se casa, mas a graça está no ponto fora da curva, despojado do plano cartesiano e suas razões quadráticas, cúbicas.

Dizem-me que o computador é cartesiano. Ele é. Por isso não é humano, mas é humano o suficiente enquanto dentre as linhas eletroeletrônicas há humanos trocando convivência e empatia em mensagens e sorrisos emulados. Bits sem vida são só bits sem valor. Deem-me trinta planos cartesianos: em cada um dou uma série de pontos. Os pontos são em si só matéria, mas dentro de minha mente ganham forma. E nisso a quarta dimensão metafísica entrega vida, variação. A forma a apreender a sequência aparentemente aleatória dos signos matemáticos pode não ser a mesma em todos, e nisso está a grande variação do mundo.

Livraria

Este texto começou a ser escrito em 2011, o finalizo agora, quatro anos depois, em homenagem a N. Neme

Cheiro de papel, luz mortiça. Estou em um porão de uma livraria, por assim dizer. Local feito comercial por um feliz (ou infeliz) acaso. É um lugar estranho para se estar a uma hora dessas (seis da tarde, enquanto escrevo). Porém, fui conduzido para cá em troca de bolachas. As mães não dizem para não se falar com estranhos? É, falam, mas quem disse que todos os estranhos são larápios?

Pois não são. Ao menos, sempre espero e nunca deixo de acreditar em uma ideia de que há empatia, ainda, entre nossos congêneres. Mas esta pessoa já não é, há muito, estranha. Dentre os dias nublados e ensolarados é uma constante encontrá-la, de sorriso aberto e animação incomparável, especialmente às 11h30 da manhã, quando o enfado das aulas assistidas mistura-se ao cansaço frente as próximas cinco, seis horas de técnico que em seguida virão.

E essa pessoa já foi estranha um dia. Arrisquei-me a corrigir algumas linhas de código e trocar ideias sobre a vida. Ganhei compreensão, abraços e biscoitos. Eu sei, a vida não é perfeita e tudo tem seu limite. Mas que poderia eu almejar? Em todos esses anos de amores platônicos e amizades incompletas, o plano de mordiscar alguns biscoitos enquanto discute sobre a literatura variada daquele porão, ali na Livraria da Villa, pareceria a joia da coroa.

Assim foi. Mas, ah, essa mania, passada à pena, de colocar tudo no paradigma da troca, do comércio e da balança! Quanto tempo demorarei para entender que não há valor na empatia e a amizade não se mede em ações simétricas. Temos os arranca-rabos e os bons momentos e a questão não é equilíbrio para todo o espaço e tempo – estes meros entes fenomenológicos. Temos as conexões e ali estarão, resistentes ao frio, calor, cidade, campo, praia ou qualquer coisa. Está na metafísica e não na esfera do físico, existente e corruptível.

Então, só me resta o quantitativo imensurável pela matemática dando os níveis da amizade. No fim, como se vê, comprei alguns livros. E a coincidência é engraçada: quem sabe não até me ajudaram a entender melhor essa tal de amizade? Não é estranho estar na livraria às seis, sete ou duas. Estranho é estar só. Esse “estranho”, sim, o mais desgraçado de todos.

Pelas calçadas rachadas da Vila Madalena, rachando espaço com jovens curtindo a sexta e observando o sobe e desce dos ônibus, o movimento dos bares, é que estivemos curtindo a cidade a um som de jazz, estivemos na mesma frequência do dial. Mas agora estamos na livraria. E é como o próximo som da rádio. Dançamos juntos, comemos biscoito. E se esta estranha fora larápia, só o pôde sê-lo por roubar um pouco dessa minha solidão.

E se depois da livraria mudamos de estação, trocamos berros... Bem, há músicas e músicas. Gosto de uma, você de outra. Muitas vezes, ambos gostamos. Mas é irrelevante, saltamos para a próxima conexão, trocamos um abraço. As folhas caem, a chuva lava as ruas, pegamos o trem cheio. A cidade vai passando pelas janelas, trocando os brilhos envidraçados pelas milhares de luzes pontuais. Eis que tal estranha faz-me descer do pedestal dos pragmatismos e cartesianismos. Olho para o vidro e vejo nosso reflexo, e o reflexo da cidade, de tudo. O mundo é grande e estamos nele, mas nos achamos. E de modo ou de outro a vida segue, mas não sozinhos a ela iremos.

sexta-feira, 25 de março de 2016

O moralismo é uma merda

Parece irônico. Como diriam aqueles populares do boteco: “gozado”. É bizarro (alô, J. Traveninsk), mas chegamos lá. Lutou-se contra dominadores, contra moralistas, contra fiscais de vida sexual alheia. Pediu-se uma sociedade mais justa, mais aberta. Sentimentos nobres, bonitos. E aparentemente tão nobres quanto a causa da liberdade individual.

Mas e o resultado, cadê? Alguém bem podia me dizer “sexo só depois do casamento” e isso poderia ser tido como moralismo. Porém, há alguma diferença entre dizer isso e dizer que não posso “fazer piadas ofensivas”? A boca é minha, ora. Falo o que quiser, tape os ouvidos quem se incomodar, a menos que eu esteja na propriedade privada de alguém, porque aí, bem, temos um conflito entre dois indivíduos de ideias distintas. Duelo de cavalheiros, senhores, get the hell out, government.

Era para estarmos mais livres, reza a lenda. Não me parece ser o caso. Para cada frase, termo e até artigos (como categoria lingüística!) podem indicar opressão. Mas minha boca oprime? Porque profiro uma ideia maldita sou dominador, exerço um discurso e provoco piora no quadro social? Ora, quanto poder vocês me colocam nas mãos! Sinto-me lisonjeado, coroado e laureado.

A meu ver, se quem tanto denunciou a opressão da sociedade vitoriana quer agora me colocar uma censura, só posso imaginar que este alguém não pode estar sério. Ou então, como dizem os falantes de inglês: is fighting fire with fire. No fundo, os defensores da igualdade social tem fetiche por poder, porque acham-se dignos de podem enfiar as botas em pescoço alheio. Afinal, não teriam tido botas em seus pescoços também?

Esses indivíduos pós-modernos (e afins) só querem mesmo ser o que jamais poderiam ser normalmente: burgueses. Suas imaginações são tão curtas que não pensam fora do “sistema” que combatem. Gostam de ter empregados, de ter o poder, tendo a impressão de que têm a carta branca para fazer o bem como entendem em suas mentes medíocres. São tão porcos quanto aqueles por eles combatidos. Mas os “porcos combatidos” ao menos tiveram a decência de produzir algo além de chorume intelectual.

Vós, senhores, sois os olhos do poder, que Foucault tanto denuncia. Vós sois os arbitrários a darem as cartas na vida pessoal alheia. Vós sois os fascistas. Um conjunto de velhinhas moralistas. Porque hoje, o ato do coito em praça pública pode até ser arte, mas vaiar nunca. A vaia é criminosa, opressiva.

E se, senhores, escrevo num lapso de raiva, penso que ameaças às liberdades individuais só se revidam com tacape. E aqui estou com quem é grosseiro, com quem xinga e com quem fala o que pensa. E até com Bolsonaro, com quem concordo pouco, mas penso ter todo o direito de falar o que bem entender. Fora, fascistas e fiscaiszinhos de opinião.

quinta-feira, 17 de março de 2016

Apodrecimento do governo, abandono do barco e o barril de pólvora do futuro

Parece-me bastante inútil versar sobre a gravidade da situação. Muita gente já está dizendo isso e o juiz a suspender a posse de Luís Inácio da Silva como ministro dá bons motivos para se considerar a situação grave. De qualquer modo, o ex-presidente sofre processos judiciais e nunca é de bom tom enfrentar a justiça se você tem a certeza da inocência. Mas isso ignoraram, o que é bom, porque aí chegamos à parte em que o indefensável fez quase todo mundo pular do barco.

Alguns não pularam, mas afundarão junto com ele. Inútil falar sobre isso. Os próximos a assumir o governo provavelmente quererão abandonar a pecha de defensores de gente corrupta, mas provavelmente também querem evitar um desgaste prematuro – de qualquer modo desgastar-se-ão frente à continuidade da Operação Lavajato, cujo objetivo é investigar a corrupção na alta esfera política e não derrubar o governo, simplesmente.

Caso o governo caia – o que ainda não é certo, cabe lembrar – não será o último. Resquícios da base, opositores de índole dúbia, fisiologistas famosos... Pouco a pouco serão riscados. A manobra de Moro parece ilegal, a princípio. E também imparcial, por “perseguir” apenas membros da gestão. Contudo, não deveria haver dúvidas: é de maior urgência ir atrás de membros envolvidos com um governo ativo. Por quê? Simples, gente de má índole governando prejudica o interesse público diretamente.

E não estamos falando de gente pouco artificiosa. Moro agiu com a máxima legalidade possível, se escapou a ela em um ou outro detalhe – o que não me parece o caso, mas suponhamos – foi apenas com o intuito de estar um passo a frente a quem tem inclusive instrumentos para obstruir a justiça. Um desses instrumentos é conceder o foro privilegiado, tal como estamos assistindo.

Desse modo, é bobagem falar em golpe. Se falarmos em golpe, só se for aquele desferido por aqueles que tanto chamavam os outros de golpistas.

A justiça deve ser feita conforme a lei. E está sendo. Mas, às vezes, em nome da lei – e existem muitas no Brasil, incluindo algumas conflituosas com outras – é necessário agir com uma rapidez muitas vezes não permitida normalmente ao sistema judiciário brasileiro, famoso por seu passo arrastado pelos infinitos recursos possíveis. S. Moro correu contra o relógio, antecipou sem aviso prévio alguns de seus movimentos. E o resto foi trabalho da polícia.

Ninguém pode criticar Moro por nada além de meras questões de data. E mesmo estas críticas merecem no mínimo um perdão, se comprovado que os acusados estavam deliberadamente destruindo provas e obstruindo a justiça – cabe relembrar: eles estão no poder.

Parece mesmo que os passos da justiça são mais uma questão de lógica do que de política.

Dito isso, lembremo-nos de que há um barril de pólvora aguardando por nós no fim desse túnel. A luz vista ali pode ser apenas a fagulha do pavio. E não será uma explosão provocada por meia dúzia de milicianos armados defendendo algo que já morreu. Tampouco uma nova cartada do governo (a essa altura já devem ter usado seu último curinga). É pior: são os resquícios ideológicos.

A história se repete como farsa. Como caricaturas do que gostariam realmente de ser, os universitários e seus professores podem até ser críticos ao governo, mas continuarão combatendo o “retrocesso”. Progressistas que são, continuarão encantados com uma certa ideia de igualdade. Por isso não se alinham de jeito nenhum ao que chamam de “direita”. Ficam no limiar, educando jovens a apoiarem a ideia do mundo mais igualitário e supostamente justo. Uma clara aberração antropológica.

Isto é, os jovens futuramente formadores de opinião (professores, jornalistas etc.) continuarão pensando tortamente, fazendo com que repitamos o erro mais algumas vezes. A conjuntura não é tão diferente, em essência, do que ocorreu com o PT em seu início. Era gente universitária honesta e fiel a seus princípios. Depois juntaram-se aos sindicalistas. E com estes aprenderam que a vida não era fácil, mas podia ficar se fossem espertos o suficiente. A conjuntura atual parece mostrar que aprenderam bem a lição. Mas mesmo a cara de pau tem limite.

Por outro lado, o que se chama de “direita” é uma massa apócrifa e ainda fortemente estatista – e não só: parece também ser propensa a engrossar o coro de alguns inflamados populistas. Este conjunto pode tornar-se fascista, a depender de uma série de fatores. Um deles é o possível recrudescimento das esquerdas (elas são minoritárias, mas nada supera seus megafones – exceto os perueiros de Cotia quando anunciam aos berros o destino da condução, ao estacionarem na estação Butantã).

Esta massa apócrifa pode rachar em apoiadores de J. Bolsonaro e M. Silva. Ambos problemáticos por motivos que, creio eu, são conhecidos por todos, mas resumirei: Bolsonaro é estatista e defende um conservadorismo torpe. Marina é dos verdinhos, adora afagar as ONGs estrangeiras e tem posicionamento político dúbio. Ainda sim, ambos parecem ter mais a ver com o espírito “apolítico” do brasileiro do que os inflamados petistas, cuja pretensão é saber o que é melhor para seu povo, tal como o Príncipe.

Mas o fato é que as coisas continuarão estagnadas. Ainda que as instituições democráticas se fortaleçam, a mediocridade prevalecerá. E a silenciosa guerra ideológica entre classes implantada nos jovens ainda provocará entreolhares cheios de ódio pelas ruas. O “nós contra eles” ainda fará vítimas da criminalidade e gerará outros conflitos sociais.

A única esperança é realmente o mercado. Apenas uma melhora econômica pode, a essa altura do campeonato, ensinar as vantagens de uma política econômica mais liberal e que as chances de igualdade são maiores quando o governo não interfere nas relações interpessoais. Uma economia mais forte, em que há atividade para todos e mais oportunidades, resta pouco tempo ao azedume do velho e desgastado discurso do “social”. Só que a economia é uma caixinha de surpresas e não me arrisco a fazer previsões, por ora. Aguardemos.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Kolakowski: "O que restou do socialismo?"

Na falta de minhas próprias reflexões, trago ao meu blog o trabalho de um notável cientista político polonês, Leszek Kolakowski, habilmente traduzido para o português por Gil Pinheiro. Deixarei que a introdução e o texto falem por si. Infelizmente, o texto caiu mal na formatação limitada do blog, gostaria de corrigir o problema, mas optei por deixar assim a fim de não macular uma tradução de tal qualidade.

Introdução à tradução brasileira

A CADA UM DOS MEUS AMIGOS QUE AINDA TATEIA SOB AS SOMBRAS DA ESQUERDA SEM SOL

Você já leu o pensador polonês Leszek Kolakowski? Este ensaio foi publicado por ele em 1995 – 14 anos portanto antes da sua morte, em 2009. Suas ideias tiveram grande repercussão depois da queda do muro que decretou o “dream is over” do socialismo totalitário. No entanto, ainda existe muita gente que nunca ouviu falar dele no Brasil. Uma pena.Traduzo-o aqui, do inglês, em parte para tentar preencher um naco dessa lacuna. Em parte para ajudar os meus amigos a seguir, a caminho da luz, um autor cujas convicções de origem socialista souberam resistir à tentação da redenção pela tirania. É longo, mas vale a pena...

Gil Pinheiro, 1/09/2015


O que restou do socialismo?

Leszek Kolakowski, outubro de 2002

Tradução: Gil Pinheiro

Karl Marx – mente poderosa, homem sapientíssimo e bom escritor alemão – morreu há 119 anos. Viveu na idade do vapor. Nunca em sua vida viu um automóvel, um telefone ou uma lâmpada elétrica, para não mencionar dispositivos tecnológicos posteriores. Seus admiradores e seguidores diziam – e alguns ainda o fazem – que isso não tem importância e que seus ensinamentos ainda são perfeitamente relevantes para o nosso tempo, pois o sistema que ele analisou e atacou – o "capitalismo" – ainda prevalece. De que ainda vale a pena ler Marx não resta dúvida. A questão, todavia, é outra: será que sua teoria explica alguma coisa sobre o mundo em que vivemos ou fornece raspaldo para previsões? A resposta é não. Outra questão é se suas teorias, um dia, foram úteis ou não. E aqui a resposta é, obviamente, sim: elas tiveram muito sucesso como um conjunto de slogans propostos para justificar e enaltecer o comunismo e a escravidão que, inevitavelmente, comporta.

Ao indagar sobre o que essas teorias explicam ou o que Marx descobriu, podem-se questionar apenas as ideias específicamente colocadas por ele, e não banalidades do senso comum. Não deveríamos, por exemplo, menosprezar Marx, atribuindo-lhe a descoberta de que, em todas as sociedades não-primitivas, existem grupos sociais, ou classes, com interesses conflitantes, que os levam a lutar uns contra os outros. Isso já era conhecido dos historiadores antigos. Nem Marx nunca reivindicou tal descoberta e, como ele próprio escreveu, em carta de1852, a Joseph Weydemeyer, não foi ele quem descobriu a luta de classes; só quem provou que ela conduz à ditadura do proletariado, que, por sua vez, conduz à abolição das classes. Onde e como, porém, ele "provou" tal grandiosa afirmação em seus escritos anteriores a 1852 é impossível dizer. “Explicar" algo significa subsumir eventos ou processos a leis; mas "leis", no sentido marxista, não são a mesma coisa que leis para as ciências naturais, que as entende como fórmulas que afirmam que, em condições bem definidas, fenômenos bem definidos sempre ocorrem. O que Marx chamou de "leis" são tendências históricas. Não há, portanto, distinção clara, em suas teorias, entre explicação e profecia. Além disso, ele acreditava que o significado do passado e do presente só pode ser entendido com referência ao futuro, que ele alegava conhecer. Logo, para Marx, somente o que não existe (ainda) pode explicar o que existe. Embora deva-se acrescentar que, para Marx, o futuro existe, sim, de uma forma peculiar, hegeliana, ainda que seja incognoscível.

Ocorre, porém, que todas as profecias importantes de Marx se revelaram falsas. Primeiro, ele previu a crescente polarização das classes e o desaparecimento da classe média em sociedades baseadas na economia de mercado. Karl Kautsky, corretamente, ressaltou que, se esta previsão estivesse errada, toda a teoria marxista ruiria por terra. E é evidente que esta previsão estava errada, uma vez que o que se verifica, na verdade, é o contrário. As classes médias estão crescendo, ao passo que a classe trabalhadora, tal como definida por Marx, tende a diminuir nas sociedades capitalistas, no bojo do progresso tecnológico.

Em segundo lugar, ele também previu o empobrecmento, não só relativo, mas absoluto, da classe trabalhadora. Essa previsão revelou-se um erro no decorrer de sua própria vida. Vale lembrar que na segunda edição de “O Capital”, ele atualizou vários índices e estatísticas, mas não os relacionados com os salários dos trabalhadores. Esses números, se atualizados, desmentiriam sua teoria. Nem o mais doutrinário dos marxistas ousou agarrar-se a essa previsão, obviamente falsa, nas décadas mais recentes.

Terceiro, e mais importante, a teoria marxiana previu a inevitabilidade da revolução proletária. Revolução que nunca ocorreu em lugar nenhum. A revolução bolchevique na Rússia não guarda relação nenhuma com as profecias de Marx. Não teve como força motriz o conflito entre o proletariado industrial e o capital, mas, sim, a pressão de bordões sem nenhum conteúdo socialista, muito menos marxista, como: paz e terra para os camponeses. Bordões esses que, é desnecessário dizer, posteriormente redundariam em seu oposto. O que talvez mais se aproxime de uma revolução da classe trabalhadora, no século XX, foram os eventos de 1980/1981 na Polónia – movimento revolucionário dos trabalhadores industriais (muito fortemente apoiado pela intelligentsia) contra os seus exploradores, quer dizer, o Estado. E este caso solitário de revolução da classe trabalhadora (se pode, por isso mesmo, ser tido como tal) foi dirigido contra um estado socialista, sob a égide do sinal da cruz e com a bênção do Papa.

Em quarto lugar, poder-se-ia mencionar a previsão de Marx sobre a inevitabilidade da queda da taxa de lucro, processo que, ao fim e ao cabo, deveria culminar no colapso da economia capitalista. À semelhança das demais, outra previsão frustrada. Porque até mesmo segundo a teoria de Marx, isso poderia não constituir uma regra operacional obrigatória, visto que a mesma evolução técnica que diminui parte do capital variável nos custos de produção pode diminuir também o valor do capital constante. De modo que a taxa de lucro pode permanecer estável, ou até aumentar, ainda que o que Marx chamou de "trabalho vivo" decline em determinada ponta da produção. E mesmo que esta "lei" fosse válida, o mecanismo pelo qual sua ação provocaria o declínio e o desaparecimento do capitalismo é inconcebível, uma vez que a queda da taxa de lucro pode muito bem ocorrer em condições nas quais o valor absoluto do lucro está crescendo. Isto foi notado, em seus aspectos mais significativos, por Rosa de Luxemburgo, que inventou uma teoria própria sobre o colapso inevitável do capitalismo, que também não se demonstrou menos equivocada.

O quinto preceito do marxismo a revelar-se errado é a previsão de que o mercado acabaria por inibir o progresso técnico. Ora, o que ocorre é justamente o oposto. As economias de mercado mostram-se extremamente eficientes em incentivar o progresso tecnologico, enquanto o "socialismo real" sucumbe à estagnação nessa área. Visto ser inegável que foi o mercado que criou a maior abundância já conhecida na história da humanidade, alguns neomarxistas sentem-se obrigados a mudar de invectiva. Antes, o capitalismo era horrível porque produzia miséria; agora, é horrível porque produz tanta abundância que extermina a cultura.

Os neomarxistas deploram o chamado "consumismo", ou a tal "sociedade de consumo". Em nossa civilização, de fato, existem muitos fenômenos alarmantes e inoportunos, associados com o aumento do consumo. O ponto, no entanto, é que todos sabemos como a alternativa a esta civilização é incomparavelmente pior. Em todas as sociedades comunistas, as reformas econômicas (pelo menos as que conseguiram produzir algum resultado) levaram invariavelmente à mesma direção: a restauração parcial do mercado, ou seja, do "capitalismo".

A chamada interpretação materialista da história até nos forneceu um certo número de ideias e sugestões interessantes, mas sem nenhum valor explicativo. Em sua versão mais forte, mais vigorosa, e para a qual se encontra considerável apoio em um grande número de textos clássicos, tal teoria supõe que o desenvolvimento social depende inteiramente da luta de classes, determinada, em última análise, através da mudança nos "modos de produção", pelo nível tecnológico da sociedade em questão. Ou mais que isso, que a lei, a religião, a filosofia e outros elementos da cultura não têm história própria, visto que sua história é meramente a história das relações de produção. Ora, isso constitui uma afirmação absurda e completamente destituída de fundamentação histórica.

Por outro lado, tomada em seu sentido mais fraco e restrito, a teoria dirá somente que a história da cultura deve levar em conta as lutas sociais e os conflitos de interesse e que as instituições políticas, ao menos negativamente, dependem em parte dos desenvolvimentos tecnológicos e dos conflitos sociais. Isso, no entanto, não passa de uma daquelas indiscutíveis banalidades, conhecidas muito antes do tempo de Marx. O que faz da interpretação materialista da história ou um absurdo ou uma banalidade.

Outro elemento do pensamento de Marx carente de poder explicativo é sua teoria sobre o trabalho. Marx fez dois acréscimos mais expressivos às teses de Adam Smith e David Ricardo. Primeiro, afirmou que, nas relações entre trabalhador e capital, o que se vende é força de trabalho, e não trabalho; em segundo lugar, fez uma distinção entre trabalho abstrato e concreto. Nenhum desses dois princípios tem base empírica ou é necessário para explicar crises, competição e conflito de interesses. As crises e os ciclos econômicos explicam-se pela análise do movimento dos preços, e a teoria do valor nada acrescenta à compreensão de ambos. Ao que parece, a economia da época – enquanto distinta das ideologias econômicas – não seria muito diferente do que é hoje se Marx nunca tivesse nascido.

Os pontos que mencionei não foram escolhidos ao acaso: constituem a espinha dorsal da doutrina marxista. Em contrapartida, quase nada no marxismo oferece soluções para os diversos problemas do nosso tempo, principalmente porque esses problemas nem eram urgentes um século atrás. No que tange às questões ecológicas, por exemplo, não encontramos em Marx mais do que banalidades românticas sobre a unidade do homem com a natureza. Os problemas demográficos teriam passado completamente batidos, não fosse a recusa de Marx em acreditar que qualquer fenômeno parecido com uma superpopulação, em sentido absoluto, pudesse ocorrer um dia. Tampouco os dramáticos problemas do Terceiro Mundo achariam socorro em sua teoria. Marx e Engels eram fortemente eurocêntricos. Desprezavam outras civilizações e elogiavam os efeitos progressistas do colonialismo e do imperialismo (na Índia, na Argélia, no México). O que importava para eles era a vitória da civilização sobre o atraso; a ideia de determinação dos povos, para Engels, era motivo de escárnio.

O que o marxismo explica menos ainda é o socialismo totalitário, que elegeu Marx como seu profeta. Muitos marxistas ocidentais costumavam afirmar que o socialismo em sua expressão soviética nada tinha a ver com a teoria marxista e, se se revelou tão deplorável, foi mais por causa das condições específicas da Rússia. Se é assim, como é que tanta gente no século XIX, especialmente os anarquistas, poderia ter previsto, com tamanha exatidão, em que o socialismo,com base nos princípios marxistas, iria dar – ou seja, em escravismo de estado? Proudhon dizia que o ideal de Marx era transformar seres humanos em propriedade do estado. Para Bakunin, o socialismo marxista redundaria num governo dos renegados da classe dominante e teria por base uma exploração e uma opressão piores do que as anteriormente conhecidas. O anarco-sindicalista polonês Edward Abramowski sustentava que, se por milagre, o comunismo vencesse em meio às condições morais da sociedade contemporânea, traria exploração e divisão de classe ainda mais graves que as existentes à época (porque as alterações institucionais não alteram as motivações e o comportamento moral do homem). Benjamin Tucker dizia que a única cura que o marxismo conhece para os monopólios é o monopólio único.

Estas profecias foram feitas no século XIX, décadas antes da Revolução Russa. Seriam seus autores clarividentes? Não. Pelo contrário, tais previsões eram apenas deduções racionais e o sistema de servidão socializada podia ser inferido das coisas que Marx anunciava. Seria, é claro, absurdo querer dizer que tais consequências eram intenção do profeta, ou que o marxismo foi a causa eficiente do comunismo do século XX. A vitória do comunismo russo resultou de uma série de acidentes extraordinários. Mas é possível dizer que a teoria de Marx contribuiu fortemente para o surgimento do totalitarismo, e que o municiou de configuração ideológica. Ao enunciar a nacionalização universal de tudo, enunciou, consequentemente, a nacionalização dos seres humanos. Mais precisamente, o que Marx fez foi tomar emprestado aos saint-simonistas o mote segundo o qual, no futuro, não haveria mais governo, só a administração das coisas. Só não lhe ocorreu, porém, que não se pode administrar as coisas sem utilizar as pessoas para esse fim, e que a administração total das coisas implica a administração total das pessoas.

Isso tudo não significa que a obra de Marx não mereça ser lida; é parte da cultura europeia e como tal deve ser lida do mesmo modo que se leem muitos clássicos – como se leem, por exemplo, os trabalhos de Descartes em física, ainda que fosse tolo tomá-los como um manual válido para fazer física atualmente. Mesmo nos antigos países comunistas, a repugnância com que hoje são tratados os textos de Marx e dos marxistas deve passar; lá também, futuramente, eles voltarão a ser lidos como reminiscência do passado. Uma das razões da popularidade do marxismo entre as pessoas educadas é que, em suas formulações simples, trata-se de uma teoria fácil. Até Sartre notou que os marxistas são preguiçosos. Na verdade, o que essas pessoas apreciam é ter uma chave que abra todas as portas, uma explicação universalmente aplicável a tudo, um instrumento que torna possível dominar toda a história e toda a economia sem ter de propriamente estudar.

O desaparecimento do marxismo significa o fim automático da tradição socialista? Não necessariamente. Tudo, é claro, depende do significado da palavra "socialismo", e aqueles que ainda insistem em usá-la como profissão de fé geralmente relutam em declarar o que entendem por isso, fora do campo das generalidades vazias. Urge então que se façam algumas distinções. O problema é que o desejo de detectar "leis históricas" levou muita gente a conceber o "capitalismo" e o "socialismo" como "sistemas" globais, diametralmente antagônicos. Mas não há termo de comparação. O capitalismo desenvolveu-se espontânea e organicamente da propagação do comércio. Ninguém o planejou, nem ele demandava uma ideologia abrangente, enquanto o socialismo surgiu como um constructo ideológico. Em última análise, o capitalismo é a natureza humana em ação – quer dizer, a ambição humana autorizada a seguir o seu curso. Ao passo que o socialismo consiste numa tentativa de institucionalizar e impor a fraternidade. Agora, parece óbvio que uma sociedade na qual a ambição é a principal motivação dos atos humanos, não obstante os aspectos mais repugnantes e deploráveis que isso possa implicar, ainda é incomparavelmente melhor que uma sociedade fundada na fraternidade obrigatória, seja o socialismo nacional, seja internacional.

A ideia de um socialismo como "sociedade alternativa" ao capitalismo beira a noção de servidão totalitária; a abolição do mercado e a estatização generalizada não pode conduzir a outro resultado. E a crença em que se possa implantar uma igualdade perfeita por meios institucionais não é menos perversa. O mundo até conhece bolsões de igualdade voluntária, tal como a praticada em alguns mosteiros ou em algumas raras iniciativas de cooperação secular. Mas a igualdade obrigatória demanda métodos inevitavelmente totalitários, e o totalitarismo implica desigualdade, uma vez que pressupõe acesso desigual à informação e ao poder. Nem, para falar de um ponto de vista prático, a igualdade na distribuição de bens materiais é possível, uma vez que o poder se concentra nas mãos de uma oligarquia que não podemos controlar. Eis porque nada, nem de longe assemelhado à igualdade, jamais existiu num país socialista. O que condena esse ideal, de antemão, à autofrustração.Sabemos muito bem por que a ideia de uma planificação absoluta é economicamente catastrófica; as críticas de Friedrich von Hayek sobre isso têm sido amplamente confirmadas pela experiência de todos os países comunistas, sem exceção. O socialismo nesse sentido significa que as pessoas são impedidas pela repressão de engajar-se em qualquer atividade socialmente útil, a menos que sob as ordens explícitas do Estado.

Todavia, a tradição socialista é rica e variada, e inclui muitas expressões diversas do marxismo. Algumas ideias socialistas, na verdade, já vêm com uma tendência totalitária embutida. Isso se aplica à maioria das utopias do Renascimento e do Iluminismo, como também a Saint-Simon. Já outras adotam valores liberais. Tão logo o socialismo, que começou como uma fantasia inocente, se tornou um movimento político concreto, nem todas as suas variantes vestiram a ideia de uma "sociedade alternativa", e entre as que o fizeram, nem todas a levaram sério.

As coisas pareciam mais claras antes da Primeira Guerra Mundiai. Os socialistas e a esquerda em geral reivindicavam não somente escolas iguais, universais e obrigatórias, serviço social de saúde, impostos progressivos e tolerância religiosa como também educação secular, o fim da discriminação de nacionalidade e raça, a igualdade feminina, liberdade de imprensa e associação, regulamentação jurídica das condições de trabalho e um sistema de seguridade social. Todos lutavam contra o militarismo e o chauvinismo. Os líderes socialistas da Europa do período da Segunda Internacional – gente da estatura de Jaurès, Babel, Turati, Vandervelle e Martov – personificavam o que havia de melhor na vida política do continente.

Mas tudo mudou com o fim da guerra, quando a palavra "socialismo" (e em grande medida "esquerda") começou a ser quase que totalmente monopolizada pelo socialismo leninista-stalinista, que distorcia o significado da maioria dessas reivindicações e slogans, para defender o oposto. Ao mesmo tempo, na verdade, grande parte desses ideais "socialistas", foram sendo realizados pelos países democráticos que praticavam a economia de mercado. Infelizmente, os movimentos socialistas não-totalitários, sofreram décadas de inibições ideológicas e acovardaram-se ante a tarefa de denunciar e enfrentar o sistema político mais despótico e homicida do mundo (depois do nazismo). Afinal, o comunismo soviético não deixava de ser uma espécie de socialismo, ornado de internacionalismo e de uma fraseologia herdada à tradição socialista. Foi assim que a tirania leninista conseguiu apossar-se da palavra "socialismo" com a cumplicidade dos socialistas não-totalitários. Houve, é verdade, algumas exceções à regra, mas não muitas.

Seja como for, os movimentos socialistas contribuiram amplamente para mudar o panorama político para melhor, inspirando uma série de reformas sociais, sem as quais o estado de bem-estar social contemporâneo – que a maioria de nós vê como direito adquirido – seria impensável. Logo, será de fato uma pena se o colapso do socialismo comunista redundar no desaparecimento da tradição socialista como um todo e no triunfo do darwinismo social como ideologia dominante.

Tendo em conta que uma sociedade perfeita nunca será alcançada e que as pessoas sempre encontrarão motivos para tratar mal umas às outras, não deveríamos descartar o conceito de "justiça social", por mais que o ridularizem Hayek e seus seguidores. É verdade que é impossível defini-lo em termos econômicos. Nem é possível deduzir da noção de "justiça social" respostas para perguntas como: que tipo de sistema tributário seria mais desejável, ou mais plausível economicamente, em determinadas condições; que benefícios sociais se justificam ou não; de que modo os países ricos devem ajudar as regiões mais pobres do mundo. Quando se fala em "justiça social" não se expressa mais que uma atitude de consideração para com problemas sociais. E também é verdade que, frequentemente, a expressão "justiça social" é evocada por indivíduos, e até por sociedades inteiras, que se recusam a assumir a responsabilidade por suas próprias vidas. Mas, como diz o velho ditado, o abuso não ab-roga o uso.

Em sua imprecisão, o conceito de "justiça social" assemelha-se ao de “dignidade humana”. É difícil definir o que significa dignidade humana. Não é um órgão incrustado em nosso corpo nem um conhecimento empírico, mas, sem ela, seríamos incapazes de responder a uma pergunta tão simples como: o que há de errado com a escravidão? Igualmente vago, o conceito de justiça social pode ser usado como ferramenta ideológica pelo socialismo totalitário. Mas é um intermediário útil entre a exortação à caridade e à esmola e a justiça distributiva. Não significa a mesma coisa que justiça distributiva porque não implica, necessariamente, o reconhecimento recíproco. Nem consiste, porém, num simples apelo à caridade, pois supõe, embora imprecisamente, que algumas reivindicações podem ter seus méritos. O conceito de justiça social não implica a existência de algo semelhante a um destino comum da humanidade, de que todos participam, mas sugere que o conceito de humanidade faz sentido – não tanto como categoria zoológica, mas moral.

Sem o mercado, a economia entraria em colapso (na verdade, no "socialismo real" nem existe propriamente economia, apenas política económica). Mas existe um reconhecimento geral de que o mercado não resolve automaticamente todos os problemas humanos. O conceito de justiça social é necessário para justificar a crença na existênica de uma "humanidade" e em que devemos enxergar os outros indivíduos como membros desta coletividade, perante a qual todos devemos assumir certos deveres morais.

O socialismo, como filosofia social ou moral, fundamenta-se no ideal da fraternidade humana – que jamais poderia ser implantada por meios institucionais. Nunca houve e nunca haverá, instituição capaz transformar indivíduos em irmãos. A fraternidade compulsória foi a ideia mais perversa que os tempos modernos conceberam; e um caminho perfeito para a opressão totalitária. Neste sentido, o socialismo não passa de um primado da mentira. Isso, porém, não basta para transformar em sucata a ideia da fraternidade humana. Se ela, efetivamente, não pode ser alcançada por intermédio de engenharia social, seu conceito ainda permanece útil como declaração de objetivos. A ideia de socialismo como o projeto de "sociedade alternativa" está morta. Mas não como declaração de solidariedade para com os marginalizados e oprimidos, não como motivação para repudiar o darwinismo social, não como luz que ilumina diante dos nossos olhos propósitos mais elevados que a competição e a ganância. Como tudo isso, o socialismo – não o sistema, mas o ideal – ainda tem suas utilidades.


Leszek Kolakowski(1927-2009) foi membro do Partido Comunista polonês e acadêmico ligado à Universidade de Varsóvia. Foi desligado do partido e da entidade em 1968 por discordâncias políticas. Escreveu "Main Currents of Marxism" (original polonês publicado em inglês pela Oxford Clarendon Press em 1978), dentre outros. Lecionou em diversas faculdades européias e americanas, firmando vínculo como pesquisador em algumas delas. Faleceu em Oxford, em 2009, deixando um extenso legado na pesquisa sobre cultura e política.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Escrever e Viver

Publicado e escrito agora, sob a égide das "problematizações" e "desconstruções", mas nada tem a ver com isso... Não em si, ao menos... juro.

É, não sei mais até que ponto sou lido aqui. Na verdade, só não sei porque o ponto não existe. O gráfico simplesmente não parte do zero. Não há feedback, não há um número significativo de visualizações. Mas os números do blog só crescem, e crescem mais do que o PIB brasileiro. E vocês vão ter que acreditar apenas em minha palavra, pois estou com demasiada preguiça de caçar os gráficos.

How come? A preguiça eu não sei, mas os gráficos indicam umas centenas de visitas a cada texto. Isso é um fracasso tremendo, mas pode piorar: a maioria desses leitores é, aparentemente, chinês. Um deles ainda comentou alguns links em um de meus textos... e não falou nada. A menos que tenha robôs chineses interessados em literatura de decadência e crônicas de uma cidade, não vejo como posso entender essa centena como algo positivo...

Mas ainda sim escrevo. Quer dizer, a essa altura diria talvez que rabiscasse. Estou digitando, mas é rabisco. A diferença entre as coisas que publico aqui e as que delineio por manuscrito em meu pequeno caderno, quando estou bêbado, é que as daqui eu consigo entender hoje, amanhã e quem sabe até eu ser atacado por algum dos alemães... Enfim, o conteúdo é observação e a tentativa de desenhar uma visão que não seja sombra, mas nunca passei da penumbra, não se enganem – na verdade, só eu para acreditar que existe alguém enganado com minhas palavras.

Aliás, falemos do blog: isso começou como um teste, quando tinha menos ainda o que fazer da vida do que hoje. Uma fase também conhecida como “adolescência” – ou aborrecência. Perdi um site que havia sido feito em FrontPage e talvez isso tenha sido um sinal da musa: “olha, pára com essa coisa de querer fazer site”. Não parei, fiz o blog. E ainda não sei porque julguei razoável publicar a imagem de um Concorde e um “Bem-vindo”, sendo que a casa estava vazia.

Mas ainda sim fui em frente. Melhorei minhas publicações em ritmo de Brasil grande. Até 2010 escrevia de modo grotesco, e de 2011 em diante também, mas virei a mesa: joguei o conteúdo no lixo e investi na forma. Vá saber porque julguei isso uma boa ideia... Quando se tem vinte anos tudo sempre parece uma boa ideia.

E minha vida está cheia de boas ideias. Bem, elas não são, de fato, ideias ruins, porém os momentos que encontro para colocá-las em prática é sempre o pior possível. Quiçá seja coisa de sagitariano... Não sei, não manjo de astrologia. Ser como eu é um saco, acredite. Você pensa trezentas vezes antes de fazer o mais simples e pensa trezentas vezes antes de fazer o mais complexo: aí a coisa simples não acontece porque você perdeu o timing e a complexa dá errado porque você pensou de menos e já meteu os pés pelas mãos.

Ora, é óbvio: se para fazer qualquer coisa se precisasse pensar muito, todo mundo teria que ter diploma de filosofia. Quer dizer, não sei... A julgar por alguns professores e colegas talvez pense que o negócio é ser programador, mesmo.

Há um ano e uns dois meses atrás, estive metido numa confusão no CRUSP, se é que me entendem. Na ocasião escrevi todo um texto sobre como via a cidade de um modo místico e de como tive experiências positivas etc. e tal... O texto é pífio. As duas artistas que leram o texto acharam-no bastante “whatever”. Com razão, eu diria. Aquilo ali é um setorzinho do meu pensamento, e tentei fazer com que parecesse grande, bacana. Na verdade, é – e ainda faço muita questão de acreditar nisso – mas no fundo do coração, arde a chama da decepção, das falhas...

Gosto da forma como acontecem em minha vida diversas mini-metáforas para ela mesma. Vou usar duas, uma do mundo dos jogos digitais e outra da vida real, mesmo. Jogo muito Counter-Strike, um legítimo “jogo de tiro”. Como todo jogo dessas espécie, você precisa de bom tempo de reação e reflexos, ou seja, tudo o que tenho de sobra – só que não. O outro exemplo é a vida social, não capto sinal algum e quando capto geralmente é tarde para compensar o prejuízo... É amizade perdida, possíveis namoradas perdidas etc.

E o mais engraçado de tudo: no começo tudo parece que vai dar certo, depois tudo volta ao vinagre novamente. É um ciclo... E bem sufocante.

Todo o santo dia me surge uma ideia tremenda para escrever um texto matador, original e responsável por resolver todos os problemas do mundo, da filosofia e do meio-ambiente. Mas não devem ser tão bons assim, porque penso neles no banho e na hora em que abro o Word não me sai uma mísera palavra. Além do mais, mesmo que a ideia fosse boa, que crédito levo eu, “Pedro Pinheiro”? Na estante de achocolatados sou aquele que contem mais açúcar que a cana da 51. No fim das contas tive a ideia mais idiota possível de escrever isso e, bem... É o que tem para hoje, me desculpem.

Desse modo só me resta dizer que estou parando. Não é como se isso não fosse óbvio e nem como se o blog fosse importante, porém é assim que lido com o mundo, gritando para ele enquanto está de costas. Quiçá pegue todas minhas ideias e junte para escrever um livro. Mas tenho uma graduação para completar. De 2007 a 2012 eu era um vagal de escola. Escola não se escolhe, faculdade sim. E de algum jeito vou terminar este projeto... Ou virar um programador medíocre criando softwares para pet shops. What a great achievment!

Finalmente, vejo que tropeço nas palavras escritas do mesmo modo que nelas ando tropeçando enquanto as falo. Estou de novo debulhando queixas do modo como fazia em 2010 e isso sou eu. Repito, não se enganem. Devo admitir: não gosto do fato de ter 70% do pensamento gasto com meu “eu”. “Eu isso”, “eu aquilo”... Todo mundo parece gostar de viver assim, isso me incomoda, mas ao mesmo tempo isso sou eu. E enquanto o paradoxo não se resolve, publico isso.

... Não sei se volto a publicar, mas se não voltar, foi um prazer enquanto durou...

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Transportes II - A infame regra dos dez anos

Sobre gambiarras na gestão do transporte público paulistano
Este texto foi publicado originalmente no Facebook, na mesma data em que aqui está arquivado

Tenho escrito com frequência sobre o tema, de modo que não é necessário re-escrever tudo o que penso aqui. Um ponto levemente tratado no texto anterior versa sobre a regra dos dez anos: os ônibus urbanos de Sampa podem gastar motor até seus dez anos de idade.

Essa regra é ponto pivotal da minha crítica ao transporte em São Paulo e por dois motivos que irei desenvolver aqui. É nesta regra em que juntam-se farsas do marketing da SPTrans e o lobby dos grandes. Nada contra os grandes, claro, apenas não penso ser saudável empresas favorecidas apenas por terem como "comprar" suas licitações.

O primeiro problema com essa regra infame é o descarte de material em boas condições de uso. É verdade que um motor diesel não dura muito, porém é normal que seja trocado algumas vezes ao longo dos dez anos, mesmo. Desse modo, um veículo bem conservado pode durar tranquilamente de vinte a vinte e cinco anos. E então é trocado quando realmente vale mais a pena obter um novo veículo do que manter o atual.

O segundo é a farsa da frota bem mantida. Os indicadores de frota sempre estarão abaixo da média dos dez anos e então dirão: "mas nossos ônibus são novos". Uma ova. Quem anda de Transppass e Mobibrasil sabe bem as condições em que estão nossos "ônibus novos", dentre os quais alguns fabricados em 2007 e outros em 2011. Se o problema é idade, estes devem ter uma idade equivalente de uns 42 anos de uso.

Ou seja, sobrevivem os empresários que podem vender os veículos novos e os que podem comprá-los: aqueles grandes cujo acesso ao BNDES é fácil. O resultado é um medíocre comércio entre favorecidos do governo, não há vez para os pequenos, que fecham suas portas e botam o sofrido investimento em frota a perder (como aconteceu em 2003 -- o resultado vê-se na imagem abaixo).

A Mercedes ganha, a Caio (que aliás é de um dos maiores empresários de ônibus de SP) ganha, a SPTrans por algum motivo parece ganhar com isso, também. Aí temos um serviço impessoal, prestado por gente que não tá nem aí para a sua frota e ainda precisamos aturar o discurso da qualidade de gestão. Mas é muito para minha cabeça!

FOTO: Rafael S. Silva / Ônibus Brasil - Pátio Guido Calói, na Zona Sul de SP (Capital).

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Transportes I - Meus cinquenta (ou vinte) centavos sobre o transporte público paulistano

Nota (22/junho): Não sei se o projeto decola, porém, dando tudo certo, este texto encabeçará (seguido do "INFAME REGRA DOS DEZ ANOS") uma série de postagens sobre o transporte público, focadas em São Paulo mas com a intenção de instituir uma discussão universal sobre transportes. Este texto fora publicado originalmente no Facebook, na mesma data em que está arquivado.

Foi nesses últimos dias em que a SPTrans resolveu lançar uma proposta para reorganizar as linhas. Vou explicar o porquê de eu tê-la achado boa e, ao mesmo tempo, ruim. A cidade de São Paulo, sabe-se bem, é um miojo de trajetos e vários deles são projeções de diferentes eras -- algumas linhas foram instituídas na era neolítica, outras datam do período cretáceo. Ainda sim, entender porque linhas antigas (p.ex. Lapa - Socorro) são tão demandadas é entender os costumes de transporte do paulistano -- e se entendê-lo, é mais possível respeitá-lo.

O paulistano, bem sabemos, é um povo conservador. E, em alguns casos, tão conservador que também não acha absurda aquela linha indo do Cabo do Bojador até Badghad via Nova Delhi. Nesse sentido, é plenamente necessária uma intervenção a fim de tornar a vida mais prática até para esse povo bastante conservador. Linhas diretas de altíssima capacidade alimentadas localmente sem dúvidas tornariam o sistema mais eficiente e eliminaria a necessidade de se utilizar ônibus grandes em todas as linhas. Mesmo o mais fiel conservador iria se render à integração, afinal começaria a chegar mais rápido ao seu destino, visto que haveria menos linhas no corredor e mais veículos.

Por outro lado (é, vocês precisam suportar a dialética do processo), não se pode ignorar o motivo pelo qual o paulistano é um conservador. São Paulo é uma quatrocentona a caminho do quinhentismo, é de se imaginar que essa não é a primeira tentativa de pôr alguma ordem no sistema. A primeira foi de Setúbal, no final dos anos 70¹. A última por Marta Suplicy, lá pela metade dos anos 2000. Não entrarei nem no âmbito de que a reforma do Haddad seria a terceira feita por um governo petista. O fato de ainda estarmos discutindo isso talvez signifique que nenhuma deu totalmente certo, embora cada uma tenha deixado seu legado -- a de Marta deixou-nos o bilhete único, por exemplo. No entanto, nem a facilidade integração, nem a nova numeração e nem a divisão por áreas foram capazes de sanar o problema.

Ou seja, muito foi mudado, mas vários traçados dos anos 70 estão congelados. E quanto mais pó juntou-se sobre os trajetos dessas linhas, mais a população se acostumou e mais ficou difícil mudar -- quando se vê a briga dos moradores da Z.L. logo se percebe a força do costume. Me parece lógico que um ônibus saindo do Cabo do Bojador e passando por Badghad para chegar ao Cairo não é uma boa solução de transporte. O mais esperto já lerá isso e olhará diretamente para a tesoura. É uma solução ruim, vamos editá-la, certo? Não.

O buraco é mais embaixo. Tal particulares são os trajetos dessas velhas linhas, que, bem ou mal, seus usuários se habituaram a usá-las nos locais em que passam -- mas provavelmente não passariam se o sistema fosse mais direto. Outra característica provocada pelo sistema caótico é a falta de "troncalidade", é o principal pesadelo dos burocratas. O tronco existe a nível de bairro, mas não a nível de distrito (O Butantã tem uns quatro) ou de área (a área oito -- laranja -- tem dezenas): é aquela avenida principal em que ficam todos os comerciantes conhecidos pelo bairro e onde toda a juventude começa a carreira. O fato de o tronco ser essa avenida faz com que a lotação não se centralize num ponto só e de quebra facilita muito o transporte para quem é do determinado bairro.

"Mas, Tadeu, mimimimimi?" É verdade, isso torna o sistema ineficiente e atrasado. É verdade, isso exige uma frota muito maior do que originalmente necessário. Porém, se é para mudar esse modelo, quem dar-me-á a certeza de que os fantasmas a praguejarem o sistema hoje não o farão amanhã? Ontem os ônibus das pequenas viações, bem mantidos e limpos, foram extirpados em favor dos grandes grupos, amanhã podemos estar, quase todos, nas mãos das cooperativas, responsáveis pelo transporte local nos bairros -- e quem anda nos infames micro-ônibus sabe o quanto é ruim. Hoje compartilhamos as conduções com as baratas a sujeira a verter o chão anti-aderente cor azul em cor bege. Hoje temos micro-ônibus em linhas anteriormente operadas por ônibus grandes.

Enfim, se ninguém pode me garantir ônibus decentemente mantido, corretamente dimensionado e operado com esmero, profissionalismo, não tenho porque acreditar nem na regra dos dez anos², nem no conto do vigário de ser o novo sistema a solução para nosso males. Não há porque imaginar que um sistema direto alimentado por um distribuído iria, automaticamente, fazer os funcionários mais prestativos, nem os ônibus melhor mantidos. E ainda tenho minhas dúvidas de que faria o sistema operar nos horários previstos! Portanto, enquanto não me derem essa certeza, por favor, devolvam minha linha direta.

_______

1 Mais sobre isso trato no texto "Oriente-se" publicado em meu blog, ainda que de modo um tanto quanto humorístico.

2 A SPTrans estipula que os ônibus devem ser trocados de dez em dez anos, porém os ônibus estão em pior estado do que se costumava ver nos anos 90. (22/jun) Mais sobre a regra dos dez anos no próximo texto da série: A infame regra dos dez anos

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Estética e Liberdade

Uma breve investigação acerca do problema entre estética e liberdade nos dias de hoje, considerando-se como cenário o espaço público.

Um grande problema parece surgir a mim, como membro de uma sociedade nos século XXI: como conciliar valores estéticos com uma liberdade nos moldes defendidos por meus contemporâneos?

Em primeiro lugar, é necessário ressaltar a importância e origem dos valores estéticos. Nesses tempos, tal conjunto recebe o nome de “padrão de beleza” -- limitar-me-ei aqui a esse sentido -- e é tido como algo a ser combatido. Entretanto, o esforço é vão, uma vez que os seres de determinada época buscam o que lhes parece mais atraente com base na experiência. O simples combate ao “padrão de beleza” significaria negar de modo hipócrita a rejeição ou aprovação de um modo que inegavelmente existe no ser humano.

Dito isso, em segundo lugar ainda que não seja plausível almejar um combate total dos padrões de beleza, seria então mais complicado ainda supor que, além de ser possível tal combate, é possível “desconstruir” -- para usar o termo corrente -- totalmente um padrão vigente para algo totalmente diferente em um curto espaço de tempo.

Por fim, a estética continua dando as cartas, mesmo que turvada entre as chapas de vidro fume da modernidade líquida. Ela pode estar um pouco distorcida, fragmentada, no entanto não deixou de existir no imaginário humano porque cumpre uma importante função: reconhecer o belo, reconhecer seu papel no belo.

Sendo assim, a liberdade nos moldes atuais colabora arduamente para a fragmentação da estética (divide et impera). Em suas linhas, interpreta-se que todo o ser humano pode criar e vestir-se da forma como quiser. Estranhamente, ao passo de que a liberdade individual parece aumentar, a liberdade de expressão sofre algumas economias, em nome da “não-agressão” e da reparação étnica.

Ou seja, há limites ideários para a liberdade, porém não estéticos. Contudo, se esquece de que o ser humano continuará julgando esteticamente, mesmo em seu mais alto grau de razão. O resultado será uma porção de indivíduos confusos, desunidos e fragmentados porque dependem de identidades estéticas de grupo. Tribos como se rotula hoje, em certo nível; ou classes, em um nível superior.

A própria existência das tribos, porém, prova a natureza indivisível do átomo representado pela estética: condizentemente com a cultura e finécia de determinada unidade cultural será o gosto e a procura pelo simples e belo. A procura continuará existindo, enfim.

Chega-se então ao primeiro conflito com entre liberdade tal como é hoje e estética: se uma civilização opta convergentemente para o terno e a gravata como roupagem elegante, os promotores de tal liberdade defenderiam haver nisso uma negação da liberdade de expressão e individual, ou, em outros discursos, um certo “preconceito”.

Os limites da liberdade são, e sempre foram, algo muito difícil de se demarcar. Porém, a nível empírico, em uma sociedade tradicionalmente ocidental existem costumes que nos parecem detestáveis, porém totalmente aceitos se ocorridos em comum acordo entre indivíduos fora de locais públicos. Novamente: negar isso sob o pretexto de haver um “preconceito arraigado e institucional” implicaria negar, também, a natureza humana – o ser humano julga, sempre julgará.

Desse modo, a tal liberdade parece favorecer mais as minorias que lutam pelo reconhecimento: proíbem que se tenha pré-conceitos delas e fazem permitir-se que andem da forma como entendem, dizendo da maioria o que na mente lhes vier. Mas, como quaisquer humanos, também julgam e continuarão julgando, enquanto aos outros indivíduos tentam negar esse direito.

A liberdade nos moldes atuais é, então, um simulacro do original sentido de seu vocábulo, já que pode existir de modo negativo. Além disso, se os promotores de tal liberdade ignoram o julgo do indivíduo, por tabela também ignoram que o julgo apurado de um indivíduo culto possa trazer-nos para mais próximo do belo, para uma noção mais refinada, mais próxima da perfeição – agem como inimigos do esclarecimento e da razão.

Originalmente, a liberdade não deveria constituir nenhum obstáculo, pois, sendo uma concessão de uma sociedade (i.e. commonwealth, como Locke coloca), implica compromissos entre o indivíduo e a maioria, dentre os quais um deles é respeitar, em ambiente público, o limite do que pela maioria é considerado razoável. Respeitado o que é considerado harmonioso pela sociedade, a estética pode fluir livremente.

As variações aparecerão com o tempo, a depender do refinamento intelectual e disposição de determinada sociedade em revisar seus procedimentos. Às minorias cabe acatar tal fato como princípio para o melhor funcionamento de uma sociedade conjunta e colaborar de modo intelectual para as mudanças de padrão estético, sendo que estas tendem a maior aceitação se feitas de modo gradual.

Enfim, a liberdade em si não agride a estética e a estética também não a agride. Conclui-se que o conflito se baseia na confusão criada pelas negações e “desconstruções” provocadas pela liberdade teoricamente irrestrita que hoje se exerce. Uma liberdade que funciona melhor a nível de grupos do que de sociedade apenas poderia dispensar à maioria a confusão e a perda de identidade cultural. O estudo da estética e da arte só tem a perder com isso.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Consolação acima

É verdade, o dia estava muito quente. Havia um tapete de nuvens, pouco vento e um bafo incrível para os vinte e cinco graus da capital. Queimava como uns trinta. A dinâmica do ônibus cheio, aliada à boa vontade nula de São Pedro inclusive me fizeram aposentar os planos de usar meu largo paletó de veludo, nesse dia.

De pólo branca, numa tentativa de refletir os tensos raios solares e um velho jeans datado dos tempos de cursinho, fui ter com a galera do curso de Jogos Digitais. A física dos gestos é algo bastante interessante, nesse povo: muda as máscaras de teatro conforme o momento e é capaz de emplacar “Risos” por uma batata, ao passo que bóia em algumas tiradas de W. Allen.

Mas não fiz por menos, e fiz o máximo possível do humor batata, ainda que impossível sob a perspectiva do mal humorado. Tinha missão, naquelas terras. Ou missões. Uma delas era almoçar pastel, numa quarta, com futuros empreendedores de games, enquanto em minha unidade reinava o descanso de não me ver graças a uma janela de horário.

Desde que praticamente me livrei dos grilhões impostos pelo amor a Bianca, a jornada que venho trilhando baseia-se em tatear um pouco do que pode me oferecer esse mundo, seja um hot dog osasquense ou uma aula a respeito do fundo azul na indústria cinematográfica, procurando pêlo em ovo até em Indiana Jones.

O que não coube nos 35 mm me restou falar aqui. Eis as outras missões: viver a cidade, enfim. E em bando subo a consolação em animado papo; ofereço a chama de meu velho Zippo herdado a uma moça que conosco anda, e cujo cabelo ganhava uma leve vivacidade graças as brisas de ar quente desse dia.

Andar só no centro pede habilidades, nesses dias de desconstrução – as pessoas desconstruíram até a forma de andar na rua! Se só já se pede a esperteza de vazar os espaços vazios antes de encontrar de peito com o gordo vendedor de amendoim, junto a amigos e, também, uma moça, exigia-se um pouco mais da capacidade multitarefa dos miolos.

Jogo o cachimbo para um canto da boca, as palavras para o outro e aí o jeito é ver se dá equilíbrio. Uma senhora me colide com os ombros, peço desculpas e escuto o vazio, quase senti uma guerra civil. Lá na frente do grupo, disse a uns amigos, sobre as batatas e não batatas FFLCHianas e não sei até hoje sobre o quanto estão certos sobre o aroma da erva.

E segue-se o tétrico andar, rumo o santo pastel. “Quero dois carnes e uma coxinha com catupiry, com tempero de centro, monóxido a gosto”. Um compra a soda, outro um espaço e alguns confusões com cruzeiros depois, todos se riem das fortunas e desfortunas dos brilhantes tempos de faculdade.

Peço à mocinha dos cabelos coloridos um pouco da teoria que repousa sobre seus dedos de programadora, tentando trocar figuras sobre a lógica ou ilógica. Não sei se supero aos tratados e artigos científicos, é notável que vivo em uma realidade em que esses não poderiam operar. E a metafísica da urbe me dá imenso trabalho com seus mistérios encerrados no olhar de cada amigo ou transeunte desconhecido.

Spotteds, quadros anônimos, poemas incógnitos... Há muito por aí, dentre os prédios, ruas e árvores. Cada defeito do pavimento é um pedaço da história, espaço aonde juntam-se as cinzas do cigarro e do cachimbo. E onde se encerram as ondas sonoras da conversa.

Fora uma quarta-feira quente, com ventos tímidos, mas uma luz bonita, e os raios de sol graves anunciam o outono e inverno vindouros em que as conversas sobre os livros e softwares começam para viverem animadas sob o céu limpo, sol nostálgico e um vento frio das tardes de maio e junho.